Viagem de Bike

Caminho das Missões : Uma rota que revela o que restou das comunidades construídas pelos jesuítas para a catequização dos índios no Rio Grande do Sul.

11 de agosto de 2017

Mais uma cicloviagem! Desta vez o convite partiu de um amigo ciclista (Reinaldo) de Araçatuba cidade onde moro. E como sou uma pessoa que não recusa um convite e não perco oportunidades – principalmente se for para pedalar e adquirir conhecimento – fui logo me juntar ao grupo formado por 6 ciclistas : Cineide , Márcia, Nilson, Wagner, Reinaldo, Marcelo e a Dani no carro de apoio. Sim, desta vez tive apoio.  Minha primeira viagem com “mordomia” não precisaria me preocupar com bagagem, mecânica, primeiros socorros, alimentação e água. Perfeito!!!!

O destino: Rio Grande do Sul – O Caminho das Missões

Tudo seria bem mais tranquilo se não morássemos tão distante da cidade onde iniciaríamos nossa jornada – 1.211km – separam Araçatuba ( São Paulo) de Santo Ângelo (Rio Grande do Sul), ou seja, o jeito foi encarar uma viagem de carro por dois dias, com uma parada estratégica. Outra opção era um voo ate Porto Alegre. Mas sete pessoas e seis bikes de avião seria loucura financeira.

Com dois carros e toda logística preparada pelos amigos e excelentes motoristas – Wagner e Nilson Sedex e o copiloto Marcelo seguimos PRONTOS para o Caminho das Missões.

As Missões eram iniciativas religiosas comandas pelos jesuítas, que desembarcaram no Brasil no período entre os séculos XVII e o século XVIII, e tinham por objetivo principal a evangelização dos índios. Foram fundadas missões em vários pontos da América do Sul, e em especial na região sul, de domínio ainda espanhol, uma vez que ainda era válida a disposição territorial acertada no Tratado de Tordesilhas. Tais missões deram origem ao chamado “Sete Povos das Missões”, que compreendem as cidades de São Nicolau (1687), São Luiz Gonzaga (1687), São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697), Santo Ângelo (1706), São Miguel das Missões (1687) e São Francisco de Borja (1666).

Tais povoados eram autossuficientes. Ou seja, sua produção era organizada num regime semelhante ao feudal, com famílias cultivando terras e doando parte da produção aos padres.

As missões existiram até meados do século XVIII, quando foram expulsas pelas coroas portuguesas e espanholas que também disputavam as terras da região. O resultado foi uma guerra sangrenta, que também acabou por dispersar ou capturar os índios da área.

O que ficou dos Sete Povos sulistas foi um legado precioso em termos de relíquias arquitetônicas e artísticas, hoje consideradas Patrimônio da UNESCO, e tombadas pelo IPHAN. Sem falar, é claro, na forte cultura guarani, presente no artesanato e na música produzidos por alguns representantes das aldeias.

No site www.caminhodasmissoes.com.br há um texto assinado por Glasis Pippi que conta um pouco mais sobre a historia das missões jesuítas

O Caminho das Missões é uma rota que passa por essas antigas estradas missioneiras que ligavam as Missões Jesuítico-Guaraní. No percurso encontram-se três Patrimônios Nacionais: os Sítios arqueológicos de São Nicolau (no município de São Nicolau), São Lourenço (em São Luiz Gonzaga) e São João Batista (em Entre-Ijuis), e um Patrimônio da Humanidade, São Miguel Arcanjo no município de São Miguel das Missões, além de dezenas de outros atrativos culturais e naturais.

Mapa cedido pela Agencia Caminho das Missões – Arte de Claudio Reinke

O caminho é uma adaptação do modelo do Caminho de Santiago de Compostela para um contexto que envolve a historia do Brasil. Foi Idealizado por um grupo de profissionais liberais – Claudio Reinke, Gladis Pippi , Marta Benatti e Romaldo Melher – todos apaixonados pela região, pela historia e seu aspecto ‘místico’e o desejo de desenvolver o potencial turístico do lugar.

Em 1999, o grupo percorreu mais de cinco mil quilômetros para conhecer melhor a região das Missões. Diversas caminhadas experimentais com o intuito de demarcar o roteiro foram feitas, muitas conversas com os moradores das áreas a serem percorridas para convencê-los a aderirem ao projeto e muitas reuniões com autoridades locais foram realizadas. Os mapas para demarcarão das estradas de terras foram conseguidos com o Exercito. O grupo empenhado conseguiu transformar o Caminho das Missões em realidade.

A inauguração oficial foi realizada no dia 16 de fevereiro de 2002. Na época ligava duas cidades – São Nicolau até Santo Ângelo – Capital das Missões -, totalizando 170 km. Em 2005, mais 155 km foram implantados com a inserção de São Borja no trajeto. Completava-se o ciclo histórico dos 7 Povos das Missões no Brasil.  Em 2012 foi inserido no roteiro o trecho que inclui o Santuário do CAARO e alguns outros ajustes, passando para 330 km o trajeto Brasil.

A maneira como o Caminho das Missões esta estruturada não deixa duvidas que pegou emprestado o modelo de peregrinação religiosa de Santiago de Compostela. Como exemplo: cada pessoa que vai fazer o caminho recebe uma credencial. Esta credencial é feita em papel tipo cartolina e, dobrada, mas aberta se transforma em uma grande cartela pra que se colem selos auto-adesivos recebidos em cada ponto de parada, aproveitando exatamente a mesma ideia dos carimbos das peregrinações. Os selos são copias fotografadas e digitalizadas da arte dos índios guaranis , que vivem próximo a são Miguel das missões e que produzem animais de madeira, arco e fecha, e outros instrumentos. Tem tatu, coruja, onça, macaco, cobra, enfim selos que juntos na cartela comprovam que a pessoa esteve naqueles lugares, o que lhe dará direto ao diploma, que é um certificado escrito em guarani.

 As sinalizações também são setas amarelas, pintadas em pedras, cercas, árvores e postes, mas há carência para indicar quais estradas seguir (a organização do Caminho tenta suprir essa deficiência entregando no início do percurso uma orientação detalhada km a km impressa).

As opções de hospedagem ainda são restritas. Os pontos de paradas para pernoite são definidos pela a operadora de turismo Caminho das Missões (www.caminhodasmissoes.com.br )  e não há como ficar em outro lugar. Fazer o Caminho das Missões sem contatar a agencia não é possível. Os moradores que recebem as pessoas em suas casas são prestadores de serviços da Agencia, que faz questão de deixar claro que há uma relação comercial. Diferente do modelo de Santiago, não há negociação direta com o albergue, pensão ou hotel. Nem há possibilidade de fazer o caminho por conta própria sem a credencial.

O caminho pode ser feito a pé, a cavalo ou de bicicleta. São 330 quilômetros de trilha, atravessando vilarejos, rios, e bosques em meio às belas paisagens. Acompanhado sempre de cenas tipicamente rurais, com rebanhos de gado congestionando a estrada e imensas plantações de soja e trigo.

Praticamente todo o trajeto é percorrido por estrada de terra, exceto 6 km de barco e os trajetos dentro da cidade. Uma característica da região é a terra vermelha.

Não tem uma altimetria muito complicada. A maior dificuldade é por conta das pedras nos caminhos e, em época de chuva, o barro.

O percurso pode ser dividir entre 3 e 5 dias de pedal, podendo ser feito em grupos ou de forma individual. Nas opções de grupos, a operadora de turismo Caminho das Missões propõe duas datas: setembro, na data comemorativa da Semana Farroupilha, festa tradicional comemorada com orgulho pelos gaúchos que reúnem a história das missões com as tradições gaúchas e em dezembro no pedal de revelloin, comemorando o ano passado nas Ruínas de São Miguel.

Nós fomos em março – sempre digo que a melhor época e aquela em que você pode ir. Fizemos um percurso de 308 km ( marcados no nosso velocímetro), em cinco dias e com uma média de 62 Km por dia.

A nossa viagem de bike pelo Caminho das missões 

Quando chegamos a Santo Ângelo – cidade onde esta localizada a Agencia Caminho das Missões, seguimos direto ate lá. Fomos recebidos por Romaldo Melher e Marta Benatti (sócios proprietários da Agencia Caminho das Missões). A recepção foi muito calorosa e o Romaldo fez questão de mostrar o mapa do caminho e conversar com o grupo como seria cada dia do percurso, o que seria visto, a distancia a ser percorrida, detalhes sobre a paisagem, lugar de almoço e pernoite, cidades pela quais passaríamos.

Após essa introdução, fomos convidados a entrar em uma sala – Sala do Ritual Místico – sim, um ritual é feito, mas participa quem quiser. Marta esperava por todos nós com tudo pronto para iniciar o ritual. Ao chegarmos, ela pediu que cada um sentasse em uma das almofadas distribuídas em forma de circulo no centro da sala. Um ambiente acolhedor com almofadas coloridas no chão. No fundo da sala, uma mesa com tampo de vidro, sobre o qual havia a cruz missioneira, um sino, velas coloridas, erva-mate, amuleto em forma de cruz missioneira, um prato de palhas com papeis escrito os nomes do grupo, um prato de ferro para a queima da erva como parte do ritual. Na parede ao lado uma estante cheio de botas gastas deixadas pelos peregrinos. Havia ainda arte indígena, feita de palhas.

Com todos já sentados em circulo, o ar da sala inebriado pelo cheiro de incenso, Marta pediu que déssemos as mãos, fechássemos os olhos e respirássemos fundo. Uma musica indígena tocava no fundo. Logo Marta começou a falar. Me lembro apenas que começava assim  “ nesse circulo de energia a mão direita dá e a mão esquerda recebe… Toda fala dela  foi sobre perseverança persistência, tolerância, a compreensão. O ritual durou cerca de trinta minutos, conduzido por Marta fomos seguindo as instruções. Primeiramente  de mãos dadas e olhos fechados, procurando relaxar, depois a queima da erva-mate e a transformação negativa em positiva e , por fim o apadrinhamento –  cada um do grupo tira um nome da cesta de palha e o nome da pessoa tirada é o que será seu  padrinho durante o percurso . Ser padrinho de alguém e mostrar solidariedade, cumplicidade, cuidar  do outro .

Após o apadrinhamento e os abraços, o ritual termina.

Não há duvidas de que o ritual em vários momentos mobiliza a espiritualidade. Por isso não é obrigatória à participação.

Da esquerda para direita em pé: Reinaldo, Nilson Sedex. Marta ( da agencia). Wagner e Cineide embaixo : Marcinha, eu, Dani e Marcelo.

Depois de todas as formalidades seguimos para São Borja em direção ao Sitio Preserva, da Tatiana e do Javier – um argentino muito simpático -, onde ficaríamos hospedados. Exaustos por conta da longa viagem de carro, esperamos pelo jantar e nos acomodamos.

1º DIA DE PEDAL   – São Borja a Fazenda Guinter em Garruchos

 62 km de pedal , mais 7 Km de barco pelo Rio Uruguai

Iniciamos o percurso no município de São Borja – 1ª Redução Jesuítica dos 7 Povos das Missões e terra dos Presidentes Getúlio Dorneles Vargas e João Belchior Marques Goulart. Em São Borja, não há sítio arqueológico e as opções, havendo tempo, são de conhecer museus ou as referências à fundação da cidade e aos presidentes brasileiros. Motivo de muito orgulho para o povo gaúcho. Nós infelizmente não visitamos os museus ( fechados).

Saímos  do sitio logo pela manhã – por uma estradinha, plana e cheia de árvores ao redor. Mas, já dava para observar ali que o nosso grande problema durante todo o trajeto seriam as pedras.

Seguimos em direção ao município de Garruchos e logo  encontramos uma estrada maior de terra batida e plana que nos levou ate a Comunidade de Santa Rita, onde avistamos a primeira placa indicativa do caminho.

Ponte do Icamaquã – rio que desagua no Rio Uruguai

Mais adiante, chegamos à casa de Dona Gelci, na Comunidade de Sarandi, local indicado pela organização do Caminho para uma parada. Infelizmente ela não estava esperando por nós, segundo ela se soubesse teria feito um almoço. Mas o cafezinho, chimarrão e o papo no “armazém” típico do interior valeram a pena.

Depois da pausa seguimos,mas a estrada de terra vermelha começou a mostrar os sinais do estrago que as chuvas da semana anterior havia provocado.

Fomos nos aproximando cada vez mais do rio Uruguai até chegarmos à propriedade do Sr. João que nos esperava para nos indicar o local onde pegaríamos o barco. Havia uma estradinha formada apenas por uma trilha na grama.

Chegamos finalmente à casa do Jair, que iria nos levar de barco, pelo rio Uruguai, nos próximos 7 quilômetros. O Jair foi muito atencioso, e nos contou algumas curiosidades do local e sua família. Sua casa, à beira do rio, tem um pomar com diversas plantas frutíferas. Os pilares sobre os quais é construída, não evitam, segundo nos disse, que ele tenha que sair daqui às vezes por causa das enchentes.

Vimos que para chegar até o rio teríamos que enfrentar uma descida com muito barro. Um bambu que serve de corrimão bem amarrado aos suportes foi à solução encontrada pelo Jair, para que ninguém escorregasse ou afundasse  na água suja que se forma na beira do rio.

Outra surpresa foi o barco, na verdade, era apenas uma canoa com motor de popa, de pouca potência. Descemos a rampa levando as bicicletas. As marcas da última enchente eram evidentes no barro.

Mas, o rio não era só aquilo que se via ao sair da casa do Jair. Estávamos em um braço dele, que escondia toda a magnitude do grande Uruguai.

Confesso que eu estava com um pouco preocupada, naquela frágil canoa em meio à imensidão de água. À nossa esquerda, estava a Argentina, à direita, o Brasil.

O rio ainda estava muito cheio, porém já havia vazado um pouco e as marcas da enchente estavam bem nítidas na vegetação à margem.

Mas, chegamos ao destino. Foi quando o Jair disse: Agora não tem jeito, vocês vão ter que enfiar o pé no barro. Olhei a margem, onde deveríamos sair e entendi: Havia uns 10 metros de rampa completamente cheia de barro. Ele carregou a primeira bicicleta para fora, até o alto, além do barro e voltou para ajudar a o pessoal todo a subir, pois estava muito escorregadio. Saímos da canoa com cuidado, mas teve quem literalmente enfiou os pés na lama.

Retomamos o pedal por uma estradinha em meio à mata, sempre pela zona rural até chegarmos a Fazenda da família Ibrisch,

mas antes enfrentamos o nosso ultimo obstáculo do dia : um atoleiro.

Na fazenda Ibrisch, fomos muito bem recebidos pela Fernanda que já nos esperava com o almoço na mesa. Enquanto esperamos nossos amigos que estavam no carro de apoio chegar ; aproveitamos o tempo para  tirar o barro dos tênis, das roupas, das pernas e das bicicletas , com uma mangueira que a Fernanda prontamente nos ofereceu. Um almoço caseiro, muita conversa e um bom papo e ainda um privilegio de curtir um belo  por do sol…completou nosso primeiro dia de pedal.

2º DIA DE PEDAL:  Garruchos / São Nicolau  – 69,3 km

Tomamos o café da manhã e nos despedimos da Fernanda, pegando novamente a estradinha. A distância prevista para o dia era de 69 km.

Logo depois que saímos da fazenda, passamos por ruínas de um cemitério. Dizem  que no local estão enterrados antigos fazendeiros e moradores da comunidade, que chegaram à região no século XVIII e dependiam da agricultura e criação de gado para sobreviver.

A estrada ao longo do caminho mantinha as características do dia anterior – terra vermelha, pedras soltas e uma paisagem que variava entre campos, matas, rios, extensas plantações de soja, criação de gado.

No roteiro cedido pela organização, muitas vezes os trechos citados são muito curtos (não há setas de sinalização em grande parte do percurso) e não dava para ficar parando o tempo todo para marcar os já percorridos. Então, quando parávamos, várias vezes não sabíamos exatamente onde estávamos. Assim, certas coisas citadas no roteiro à gente nem localizava. Como por exemplo, a casa de D. Preta – pessoa atenciosa que gosta de conversar com os peregrinos – descrição do folheto impresso.

Já o Sitio do Sr. Xico, onde o roteiro do caminho sugere ser: um belíssimo lugar para descansar, tomar banho no Rio Uruguai ou fazer um passeio de barco – esse nós encontramos, mas não havia ninguém na propriedade.

A partir desse ponto o percurso foi por um descampado . O sol e o calor foram nossos inimigos nesse trecho. Não tínhamos como fugir dessa situação, então seguimos em frente ate chegáramos à casa do Sr. Ramão.

Não tínhamos como fugir dessa situação, então seguimos em frente ate chegáramos à casa do Sr. Ramão – a melhor parte do dia – fomos recebidos com um suco de amora geladinho e um almoço delicioso. Alguns tomaram banho de mangueira e outras descansavam em baixo de uma sombra, enquanto “proseávamos” com o Sr. Ramão – pessoa incrível .Estava tão bom que queríamos ter ficado por ali,mas a programação do dia não permitiu.

Depois de uma longa pausa seguimos – destino a travessia do Rio Piratini (o rio divide os municípios de Garrucho e São Nicolau). Atravessamos uma porteira de arame e madeira e seguimos. Prosseguimos pela trilha, cada vez mais rústica.

Não foi difícil encontrar a “barca dos crentes”, ela é utilizada para atravessar o rio Piratini. Sem motores, sem ninguém puxando, o que move a balsa é à força da correnteza. Ali enquanto nos preparávamos para a travessia foi possível observarmos um trabalhar rural na “lida”com o seu cavalo. A interação com os locais torna a viagem enriquecedora.

A balsa “Barca dos Crentes”

Depois da travessia pedalamos por mais uns 10 km e chegamos a São Nicolau .

São Nicolau foi a primeira Redução Jesuítica da Companhia de Jesus, fundada em 1626, e refundada em 1687 durante o período dos 7 Povos das Missões. As ruínas, parte do Patrimônio Nacional, ficam no meio da cidade. Como não é uma área cercada, a visita pode ser feita a qualquer hora.

Esta aldeia sofreu várias mudanças, causados tanto pelos ataques constantes dos bandeirantes para captura de índios, como por um grande incêndio que destruiu parte da cidade. Hoje restaram partes do piso original, do cabildo, da igreja, da adega e do sistema de esgoto.

Infelizmente, as ruínas em São Nicolau foram saqueadas e as pedras e utensílios tiveram várias destinações, inclusive foram usadas por moradores da cidade atual para construir casas. Quando se começou a falar em preservação, cobriram as paredes com reboque para encobrir as pedras. Sabe-se disso pela grossura das paredes, não porque alguém tenha admitido.

Um lugar que infelizmente não foi possível visitar foi à igreja local – estava chegada a tarde quando chegamos e de manhã quando partimos. Na igreja estão três imagens que foram salvas das ruínas.

Em São Nicolau ficamos hospedados no Hotel Tio Patinhas. No inicio da noite o tempo mudou – nuvens negras e trovões tomaram conta da pequena cidade. Uma forte chuva caiu, o que nos deixou muito preocupados. No dia seguinte enfrentaríamos o barro vermelho , que segundo dizem “cola” na sola do sapato.

3º DIA DE PEDAL:  São Nicolau / São Luiz Gonzaga – 57  km

O dia amanheceu nublado, ao contrário do dia anterior. Como havia chovido muito na noite anterior optamos por um trecho alternativo, indicado pela organização do percurso. O caminho seguia pela rodovia RS 561 e depois de 23 km alcançaria a RS 168.   Em determinado ponto do roteiro desviamos para uma estradinha vicinal .

A cruz de dois braços um importante símbolo utilizado, não apenas pelo Caminho das Missões, como empresa turística, mas por toda a região, uma vez que nos trevos de acesso ás cidades há uma cruz missioneira.

Como desviamos do caminho orientado pela organização ( sem querer ), encontramos uma pequenina cidade e nela uma confeitaria onde os biscoitos são feitos a “moda antiga”. Uma parada providencial! O que torna a viagem especial – os encontros, as surpresas…

Depois da parada seguimos até São Luiz Gonzaga sem nenhuma intercorrência ou atrativo durante o percurso. Lá seguimos direto para o Hotel Ipê onde ficaríamos hospedados. Chegamos no inicio da tarde, com tempo livre descansar e para visitarmos a cidade.

Chegada a Catedral Basílica de São Luiz Gonzaga

No interior da  Basílica de São Luiz Gonzaga estão 12 imagens que  foram esculpidas nas oficinas da Missão orientada por um irmão jesuíta, sua matéria prima é a madeira que era encontrada na própria região. Para as imagens que deveriam ser entalhadas, policromadas e douradas usavam o cedro e o igary. Os corantes eram extraídos de plantas ou óxidos locais com a cor ocre. Da erva- mate fazia-se o verde; do urucum o vermelho; do yrybu retymá, o negro o dourado de ouro em pó. Estávamos curiosos para visitar -la, mas infelizmente estava fechada. Fizemos três tentativas, fomos até a casa paroquial , mas elas todas frustradas. Um assunto que mais tarde colocamos para os organizadores do roteiro . Na frente da Igreja uma coluna do antigo colégio jesuítico demolido em 1932 para se abrir uma rua.

Em São Luiz Gonzaga há um belo parque – O Parque Centenário.

Visitamos a cidade e retornamos ao hotel. A expectativa para o dia seguinte era grande  teríamos a visita: ao Sitio Arqueológico de São Lourenço, Santuário do Caaró e o de  Sitio Arqueológico de São Miguel .

4º DIA DE PEDAL:   São Luiz Gonzaga /São Miguel – 70  km

A marca das chuvas do dia anterior estava em todos os lugares. Nós havíamos sidos alertados pela organização do percurso caso a estrada estivesse com barro deveríamos servir o caminho alternativo pela rodovia – como fizemos no dia anterior.

Foi quando chegamos ao impasse: a chuva tinha sido há dois dias e a pela rodovia enfrentaríamos o fluxo de caminhos em uma estrada sem acostamento. Teríamos que escolher – parte do grupo optou pela rodovia e outra decidiu arriscar na estrada de barro vermelho. Outro fator que fez com que parte do grupo optasse pela estrada de barro foi que seguindo por ali teríamos acesso ao sítio arqueológico São Nicolau. Marcamos de nos encontrar no Santuário do Caaró, nossa próxima parada antes de chegarmos a São Miguel.

Divididos seguimos. O grupo que seguiu pela estrada de terra conseguiu  pedalar alguns trechos, apesar da dificuldade , mas teve um momento em que pedalar tornou-se impossível.

o barro começou a grudar no pneu e as pocas de lama a ficarem mais constantes…

Não deu…. O carro de apoio foi à salvação. O barro nas rodas era tanto que tivemos que colocar as bikes no carro. Foram apenas cinco quilômetros, uma descida onde o barro ainda não havia secado. Dali seguimos no carro de apoio até o Sítio Arqueológico de São Lourenço Mártir.

Cruz de madeira,marcando o local de uma grande Batalha da Revolução Federalista. As pessoas deixam lenços vermelhos ou brancos com pedidos ou agradecimentos por graças alcançadas.

Sítio Arqueológico de São Lourenço Mártir

Era 1690 quando o Padre Bernardo De La Veja fundou a Redução de São Lourenço Mártir. Da Redução de Santa Maria Maior, lá na Argentina, ele trouxe 3512 índios. Já no começo, 823 famílias formaram o quinto povoado missioneiro no Rio Grande do Sul.

O aldeamento tinha a praça ao centro e a igreja como principal construção. As poucas paredes ainda intactas dão a dimensão da grandiosidade do templo religioso. Um prédio com aproximadamente 80 metros de comprimento e 40 de largura.

O que chama a atenção é a perfeição das pedras. Esculpidas de forma artesanal, grande parte intacta desde a época em que os índios habitaram esta terra.

As árvores emolduradas pelos fragmentos de parede da igreja formam uma cena deslumbrante.

O local chegou a ter quase 7 mil índios, uma das maiores reduções. Tudo numa série de construções tão bem planejadas que hoje ainda deixam dúvidas entre a população.

As ovelhas que correm soltas pelo Sítio Arquelógico de São Lourenço das Missões também ajudam a contar a história que se passou no lugar. Há em torno de 30 animais da raça conhecida como missioneira, criada na época da antiga redução jesuítico-guarani.

Na volta próximo ao Sitio Arquelógico  encontrarmos um bar e paramos para tirar o barro das rodas e seguir pedalando.

Depois  do trecho critico ,voltamos a ter condições favoráveis a uma boa pedalada até onde deveríamos reencontrar o grupo que havia optado pela rodovia –  no Santuário do Caaró.

Chegamos todos bem e encontramos encontramos nossos amigos– segundo eles, também encontraram dificuldades com buracos cheios d’água e o trajeto intenso de caminhões.

Santuário do Caaró

O Santuário homenageia a morte dos santos missioneiros, Roque González, Afonso Rodrigues e João de Castilhos, ocorridas em 1628.  Dizem que após a missa, o Padre Roque preparava-se para erguer o sino, e foi quando dois índios desferiram violentos golpes de machadinhas de pedra (itaiçás) sobre a cabeça do padre. Em seguida, o Padre Afonso, saindo de sua cabana, também foi igualmente atingido mortalmente.

Hoje, no Santuário do Caaró, é local de peregrinação. Deste local os peregrinos levam água, que é reconhecida como milagrosa fato que levou a canonização dos 3 padres, agora Santos da igreja. Mas infelizmente, em minha opinião o lugar merece mais manutenção e conservação. A fonte onde os peregrinos buscam pela água parecia abandonada.

Dali, seguimos para São Miguel.

Chegamos ao Sitio Arqueológico São Miguel faltando apenas trinta minutos para fechar. Como eu queria aproveitar a luz do fim do dia para fotografar, paguei o ingresso. Meu amigo Nilson topou entrar também, mesmo sabendo que aproveitaríamos muito pouco . O restante do grupo seguiu direto para o Hotel. À noite retornaríamos para O Espetáculo Som e Luz.

O Espetáculo Som e Luz

Criado em 1978 pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e repassado para o Município de São Miguel das Missões (responsável pela administração e manutenção da estrutura), o espetáculo conta a história das Missões, do Tratado de Madrid e das guerras envolvendo os índios guarani –  de uma maneira  muito especial -, luzes piscam e iluminam a catedral, as oficinas e as árvores, enquanto elas ganham voz (entre outros artistas, de  Lima Duarte e Fernanda Montenegro), que contam a historia com uma entonação bem dramática e teatral.  Achei bastante instrutivo para os que conseguem acompanhar os diálogos entre uma ruína e outra.

O espetáculo tem  duração de quase uma hora, é apresentado todos os dias ao anoitecer em frente à Igreja do Sítio Arqueológico do único Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade do Sul do Brasil. Os ingressos estão à venda 1h antes do início do evento na Secretaria Municipal de Turismo, em frente à guarita de acesso ao Sítio Arqueológico. (http://www.saomiguel-rs.com.br/Turismo/) É bom ir agasalhado, o lugar é um descampado – nós passamos frio. Dali fomos para um restaurante experimentar um churrasco “gaucho”, mas não  estava não tão gaúcho.  Depois fomos descansar para no dia seguinte seguir nosso ultimo dia de pedal.

Em São Miguel ficamos hospedados na Pousada das Missões.

5º DIA DE PEDAL:  São Miguel/ Santo Ângelo – 54,9 km

Próximo a pousada há um local chamado de o Ponto de Memória Missioneira, um pequeno museu particular, mantido pelo trabalho de um morador local – Valter Braga, de origem Guarani, historiador auto-didata e idealizador da exposição. No local há que tem centenas de obras dessa época, além de antiguidades em geral.

Aproveitei para visitá-lo enquanto o grupo se preparava para deixar a pousada.

Lá fui recebida pelo Valter que me contou que os objetos que ali estão foram coletados por moradores e foram guardados em suas próprias residências. Foi quando surgiu à ideia do projeto – colocar todas as peças em um mesmo lugar. Ele também mantém um altar completo com um Artoche, e explicou de forma entusiástica como funcionava o Tatarandê – sistema de comunicação através da luz do fogo utilizado entre as reduções.

Ainda falou sobre os rituais da Erva Mate. O interessante foi observar o entusiasmo do Sr. Valter enquanto contava estórias e historias. Mas o lugar merece mais atenção dos órgãos públicos.

Tatarandê em Guarani, (tata = Fogo + randê = Luz) sistema de comunicação através da luz do fogo utilizado entre as reduções.

Sala do Ritual Das Ervas

Antes de seguirmos para Santo Ângelo, paramos novamente no Sítio Arqueológico São Miguel  – a maioria do grupo havia visitado o sitio a noite. E ele merecia uma visita longa e calma, pois é o mais bem conservado dos sete povos das missões. O destaque fica por conta da igreja, projetada em estilo barroco pelo arquiteto Giovanni Battista Primoli. Em frente ao templo ficava uma grande praça, de onde saíam as principais ruas do povoado. As casas – dos índios e dos jesuítas – se espalhavam ao redor da igreja, mas por ali também ficavam outros lugares importantes, como escolas, um cemitério e prédios públicos.

 

É possível ver a estrutura de algumas dessas construções. As ruínas da Igreja impressionam, mas estar ali e  poder  imaginar “a cidade” funcionando foi  incrível.

Em frente ao sitio descendentes dos índios, comercializam sues trabalhos artesanais.

No mesmo lugar fica o Museu das Missões, que foi projetado por Lúcio Costa. É onde estão guardados alguns dos objetos missioneiros encontrados durante o processo de restauração.

Há um quilômetro das ruínas esta a Fonte Missioneira, uma das sete que faziam parte do sistema de abastecimento da redução, mas que foi redescoberta só em 1982.

Embora guarde um Patrimônio da Humanidade, a estrutura turística de São Miguel ainda deixa a desejar. Faltam mais hotéis, restaurantes e até um centrinho gastronômico interessante. Infelizmente não é sô ali. Varias cidades históricas do Brasil ainda são carentes de investimentos públicos.

Dali, seguimos por uma estrada com as mesmas características das dos dias anteriores: plantação de soja, pedras soltas, terra vermelha e com pequenas subidas e descidas, de pouca envergadura e declividade.

No caminho paráramos  no sitio arqueológico São João Batista, em Entre-Ijuís.

 O Sitio foi construída por habitantes do povoado de São Miguel Arcanjo, que já encontrava dificuldade para abrigar tantas pessoas. Ainda é possível ver cemitério do povoado, bem como as estruturas como olaria, barragem.

Um monumento de 1959 se confunde em meio às construções do Século 17. É uma obra feita de pedra em homenagem ao o padre fundador, Antônio Sepp, que também era músico. Por isso, ele introduziu a metalurgia nas missões, fazendo instrumentos de toda a espécie. Sua obra-prima foi o sino da cidade. A figura representa os pioneiros da siderurgia do Brasil.

 

Dali, seguimos direto para Santo Ângelo.

 

Chegada na Praça Pinheiro Machado em frente à Catedral Angelopolitana. Lá o Romaldo esperava por nos. Mas foi muito emocionante, porque havia no momento um encontro de jovens acontecendo. Todos eles nos receberam com muito entusiasmo.

Santo Ângelo é maior cidade da região. O maior símbolo do município é a Catedral Angelopolitana. A arquitetura da catedral é de estilo barroco missioneiro, um misto de barroco, renascentista e guarani. Na fachada, em pedra grês ou arenito, colunas, arcos e esculturas de Valentim Von Adamovich homenageiam os padroeiros dos Sete Povos das Missões.
Está uma das poucas igrejas a ter como padroeiro um anjo, e não um santo. Dedicada ao anjo da guarda, é semelhante ao templo construído na redução de São Miguel no século 18.

Na praça e após visitarmos a catedral demos por encerrado a nossa missão pelo Caminho das Missões.

À noite  o Romaldo nos ofereceu um churrasco – esse sim – gaúcho! No encontro alem dos sócios da Agencia das Missões, também estavam representantes do Paraguai, o objetivo do grupo é a inclusão dos caminhos internacionais (Argentina e Paraguai), completando os 30 Povos e deixando a trilha com, aproximadamente, 700 km. Esta sendo programada para ser lançada em 27 de setembro de 2017, para fase experimental e testes.

Foi muito legal, pois eles nos deram a oportunidade de expressarmos nossas opiniões a respeito do roteiro: tanto pontos positivos como os negativos.

No final, porém, considero a experiência positiva. Ao menos, em termos de cultura, tivemos um “banho” de história…

Muitas pessoas já percorreram esse caminho. Cada um com um objetivo diferente: religioso, turístico ou esportivo. Mas em minha opinião o principal é aproveitar cada dia da viagem, no meu caso, foi curtir bastante cada dia de pedalada com pessoas incríveis e a contemplar a paisagem do que é maravilhosa. Contemplação, aliás, é a palavra-chave desse roteiro. Seja da natureza, das ruínas ou simplesmente da história gaúcha.

E só tenho a agradecer ao grupo a oportunidade da convivência !!!!!

 

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18 Comments

  • Reply Márcia Malta 14 de agosto de 2017 at 17:18

    Viagem Mágica!

  • Reply Nilson "Sedex" 15 de agosto de 2017 at 22:17

    Vera! Achei sensacional todo o seu relato, muito bem explicado e com muitos detalhes que nem eu lembrava mais, além de ter percorrido o trajeto, lendo todo o seu trabalho ainda tive a oportunidade de adquirir um conhecimento muito mais profundo sobre o “CAMINHO DAS MISSÕES”. Muito obrigado por poder fazer parte de seu trabalho fantástico.

  • Reply Carlos Eduardo de Lima Almeida 15 de agosto de 2017 at 23:43

    Um ótimo texto muito bem relatado rico em detalhes, que nos faz sentir com estivéssemos juntos pedalando. No meu caso específico uma mistura de sentimentos: uma vontade imensa de participar de uma aventura como está é outro um pouco de frustração de saber que não conseguirei fazê-lo tão cedo. Mas ficou muito feliz de vêr companheiros de pedal viveram está experiência e com certeza estão realizados de ter vivido está experiência, parabéns a todos vocês.

  • Reply Álvaro 16 de agosto de 2017 at 10:53

    Parabéns à todos. Realmente uma aventura inesquecível, uma “viagem” super saudável, cenário, relevo, geografia local, tudo muito inspirador… Nilson, obrigado pelo link! 👍 e mais uma vez, parabéns ciclistas, pedalar é ótimo!

    • Reply Vera Marques 16 de agosto de 2017 at 13:31

      Obrigado!!!

  • Reply Juliana 16 de agosto de 2017 at 12:06

    Tudo muito legal…lindas fotos

    • Reply Vera Marques 16 de agosto de 2017 at 13:32

      Obrigada!!!Abs

  • Reply Jefte Pereira Benedito 16 de agosto de 2017 at 13:22

    Parabéns Vera Marques, Nilson Sedex, Márcia, Reinaldo e toda essa equipe maravilhosa que fizeram esse pedal. Realmente as fotos são de tirar o fôlego.

    • Reply Vera Marques 16 de agosto de 2017 at 13:30

      Obrigado Jefte.E um prazer compartilhar.Abs

  • Reply Marcia 16 de agosto de 2017 at 22:01

    Muito bom

  • Reply Sandro 16 de agosto de 2017 at 23:27

    Percurso maravilhoso, lindos lugares e fotos. Texto empolgante e emocionante! Parabéns Vera!! Parabéns a todos que participaram desta aventura! Valeu Nilson!!

  • Reply Claudio aparecido cunha 17 de agosto de 2017 at 07:58

    Muito top mesmo.

  • Reply Andréa Tereza 17 de agosto de 2017 at 10:03

    Muito bom ter a oportunidade de conhecer esta história pelos Araçatubenses. Parabéns a todos.

  • Reply Daniel Franco 17 de agosto de 2017 at 12:22

    Agora eu acredito em você Nílson. Maravilha!!

  • Reply Leandro Hiroshi Murai 17 de agosto de 2017 at 12:36

    Parabéns! Foi muito legal poder acompanhar vcs através desta publicação! Abraço tbm para o Patrício Nílson SEDEX.

  • Reply Leandro Hiroshi Murai 17 de agosto de 2017 at 12:38

    Parabéns! Legal acompanhar vcs nessa viagem através do site! Abraço tbm ao patrício Nilson SEDEX.

  • Reply Luiz 22 de agosto de 2017 at 13:25

    Parabéns pelo relato ….Nilson que legal você ter participado dessa viagem. Cada paisagem e cada lugares bonitos.

  • Reply Luiz 22 de agosto de 2017 at 13:26

    Nilson que legal você ter participado dessa viagem. Cada paisagem e cada lugares bonitos.

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