Viagem de Bike

Circuito Lagamar – SP Cicloturismo

7 de março de 2017

Nesse carnaval decidimos conferir o Circuito Lagamar – litoral sul Paulista e Vale do Ribeira -, um projeto muito parecido com o Circuito do Vale Europeu – Santa Catarina. A proposta é a mesma: dar ao cicloviajante oportunidade de roteiros que permitem explorarmos regiões diversificadas do Brasil. Poder apreciar nossas culturas, costumes e belezas naturais. 

Mapa_Circuito-Lagamar-SP

Imagem disponível no site www.ilhacomprida.sp.gov.br

Assim como no Circuito do Vale Europeu o ciclista tem acesso a mapa, passaporte e precisa assinar um termo de responsabilidade. Os kits estão disponíveis na Padaria Cajara (Av. Copacabana, 252- Balneário Britânia). Nós conseguimos apenas o passaporte (credencial que poderá ser carimbada nas pousadas e pontos de apoio), não havia mapas impressos. Então da padaria seguimos para a Oficina de Turismo (localizado na Rodoviária). Fomos muito bem acolhidos e tivemos informações, mas também não havia o kit. A solução foi ir até uma Lan House e imprimir o guia disponibilizado no site do município de Ilha Comprida ( www.ilhacomprida.sp.gov.br) Quem me conhece sabe: não sou ninguém sem mapa impresso, apesar de toda tecnologia.

O percurso abrange o extremo sul do Estado de São Paulo. Tem aproximadamente 180 km de extensão e é dividido em 5 trechos entre os municípios de Ilha Comprida, Iguapé, Pariquera-açu, Jacupiranga e Cananéia. O idealizador do projeto foi biólogo e gestor ambiental William Mendes, apaixonado por ciclismo. No site http://wmmultiambiental.com.br/PERCURSOS/ ele disponibiliza as rotas e altimetrias.

A viagem no circuito pode ser planejada e executada por cada viajante da maneira que lhe for mais conveniente, pode ser percorrido entre 1 a 5 dias, ou até mais, dependendo do tempo ou da disposição dos viajantes.  Nós decidimos fazer em 3 dias de acordo com nossa disponibilidade de tempo.

1 º dia : Ilha Comprida a Pariquera-Açu

58km

O Circuito tem início na Ilha Comprida, no Espaço Plínio Marcos, onde está uma placa com informações do município e do trecho. Dali até Iguapé é apenas 6 km de extensão.

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O trajeto tem trechos de ciclovias, mas em alguns momentos é necessário pedalar na rua mesmo, mas muito tranquilo. Logo encontramos a ponte “Prefeito Laércio Ribeiro”, e foi só atravessar para chegar a Iguapé. A Cidade vista da ponte é linda.

Iguapé é uma das cidades mais antiga do Brasil (lembra muito Tiradentes-MG ou Parati-RJ)  , é conhecida nacionalmente pela  tradicional Festa do Bom Jesus de Iguapé e pelo famoso Carnaval ( muito bom). A região era o divisor de águas ao sul do Tratado de Tordesilhas, entre Portugal e Espanha, por este motivo pode-se dizer que a cidade nasceu quase junto ao descobrimento do nosso país. A cidade foi palco dos Ciclos do Ouro e do  Arroz . Conta-se que nesta época a riqueza era tanta, que as mulheres enfeitavam seus cabelos com ouro em pó.  Nesse período ( séc. XVIII) foram construídos os casarões coloniais, hoje tombados como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Eles dão charme à cidade, mas infelizmente todos muito abandonados e sem preservação.

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Sobrados dos Toledos

O prédio foi construído na primeira metade do século XIX por José Carlos de Toledo, um dos homens mais ricos do seu tempo, mas que morreu empobrecido. Após, foi confiscado pela Justiça e em 1879, os herdeiros adquiriram o sobrado do Juízo Municipal de Iguapé. Em 1931, devotos do Bom Jesus, os herdeiros doaram o prédio ao Santuário de Iguapé para que abrigasse romeiros pobres durante as festividades do padroeiro, que hoje é conhecida como a segunda maior festa religiosa do estado de São Paulo. Nesta época o prédio era conhecido como “Sobrado do Santo”.  Em 2014 foi apresentado as autoridades um projeto de restauração, , mas pelo que aparece as coisas ainda estão no papel. Triste …

Iguapé realmente remete a história, não é difícil caminhar pela cidade e reviver os tempos áureos do Brasil colonial.

As eiras e beiras nos telhados dos casarões eram um dos símbolos de riqueza das famílias do período colonial. Quem tinha dinheiro construía telhados com eiras e beiras, já os pobres não tinham eira nem beira (daí a expressão). Segundo os moradores com quem conversei essas acima são chamadas de beiras-seveiras  e eram utilizadas nas construções religiosas e militares.

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Basílica do Senhor Bom Jesus de Iguapé (estilo barroco foi construído em pedra, argamassa e óleo de baleia).

A Basílica do Senhor Bom Jesus de Iguape e Nossa Senhora das Neves é um templo católico construído em pedra portuguesa, argamassa e óleo de baleia, entre os séculos XVIII e XIX. É possível observar várias imagens, entre elas as dos padroeiros do município, Nossa Senhora das Neves e Bom Jesus de Iguape.

 

Ainda em Iguapé fomos privilegiados com uma exposição fotógrafa  de Nair Benedicto que acontecia no Museu. A exposição Fé Menina apresenta um retrato da mulher brasileira através de fotos coloridas e em preto e branco. Desde a década de 70, a coletânea mostra a realidade feminina em diferentes situações: prisão, passeatas, aldeias indígenas e no carnaval.Muito linda!!!!!

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De Iguapé seguimos por uma ciclovia até chegar a uma passarela de pedestre. Atravessamos e, seguimos em direção a Estrada do Jeirê (estrada de terra).

No começo do trecho uma cena nos deixou chocados: um lixão enorme, que pareceu ser clandestino, estava ali poluindo o ecossistema. Por alguns minutos restos de recipientes plásticos e mal cheirosos nos acompanharam, mas conforme o tempo passou a cena nada agradável ficou longe dos nossos olhos.  Só gostaríamos que ela também ficasse longe da população local e da natureza. 

Indignados seguimos e logo a natureza foi se mostrando aos poucos junto com as fazendas de criação de búfalos. O percurso segue por um caminho arenoso, plano e que vai contornando o Rio Ribeira de Iguapé.

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Depois de pedalar por cerca de 27 km encontramos o pequeno distrito de Momuna e uma placa indicativa sinalizando a direção. Há também nessa bifurcação um pequeno bar – um ótimo ponto para se reabastecer de agua. Dali a vegetação e o piso começam a mudar, o terreno arenoso dá lugar a terra cascalhada. E a vegetação, passa de pastos para mata atlântica e o terreno passa a ser ondulado, sem cruzar grandes morros, mas com subidas e descidas suaves.

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Alguns quilômetros depois encontramos outra placa de sinalização, mas infelizmente não ajudou – localizada a mais ou menos 100m antes de uma bifurcação deixou a duvida se seguíssemos a direita ou esquerda. O local estava deserto então nos restou escolher um dos lados. 

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Aqui vire a esquerda…

Escolhemos o lado errado (nem nos lembramos do GPS) – sorte que em três quilômetros à frente encontramos um boteco e perguntamos. Voltamos sem problema. Na direção certa, seguimos por trecho agradável de pedalar, pela mata e com muita sombra.

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Quando a estrada de terra acaba o pedal é feito por uma estrada sem acostamento (SP-222), são apenas 8km ,mas foram tão tensos que parecia 80km. Provavelmente devido ao ferido de carnaval encontramos uma estrada com tráfego intenso e com motoristas dirigindo em alta velocidade. MUITO PERIGOSO , na minha opinião.

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A chegada a Pariquera – Açu  realmente nos deixou aliviados. Seguimos direto para o Hotel do Bi (www.hoteldobi.com.br) onde ficaríamos hospedados.

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Igreja Matriz de Pariquera-Açu

No dia seguinte seguiríamos por estrada asfaltada e sem acostamento novamente. Seriam 13 quilômetros até Jacupiranga, mas estávamos tão preocupados com o movimento na estrada que decidimos procurar por um transporte que pudessem nos levar até lá. Fomos até o ponto de taxi e encontramos um senhor que tinha uma carreta para bike. Combinamos com ele para o dia seguindo. Foi uma decisão acertada o movimento de carro era intensa, estrada com curvas e faixa amarela dupla por quase toda extensão (sinalizando ultrapassagem proibida). A segurança deve prevalecer sempre. Acredito que em outras datas seja possível trafegar sem problema.

2 º dia : Pariquera Açu / Jacupiranga / Cananéia

Os primeiros 13 km foram percorridos de carro. Chegamos a Jacupiranga, exploramos a pequena cidade …

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…e seguimos agora pedalando na SP-93 (há placa indicativa na entrada da cidade), também conhecida como Estrada do Canha, a estrada mais antiga do Brasil – aberta por Pero Lobo em 1531 a mandado de seu irmão Martim Afonso de Souza -, o caminho coincide com a trilha indígena milenar do Peabirú, cheia de lendas e histórias.  Leia mais sobre essa trilha  nesse site (http://www.brasilazul.com.br/peabiru.asp).

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O percurso todo é tranquilo segue com leves subidas e descidas. Poucos quilômetros antes de chegar a Cananeia há um desvio com sinalização para a cachoeira do Pitu.  O local possui uma grande piscina natural e é muito bonito. Devido ao carnaval o local estava cheio de pessoas.  A cachoeira fica no Sítio Rio Branquinha – propriedade privada – O proprietário estava cobrando 10 reais para entrar, segundo ele a cobrança é para manter as trilhas.

Saindo do sitio voltamos para a estrada, pouco depois encontramos placas indicativa do Circuito e seguimos sem problemas até a estrada terminar e chegarmos a uma bifurcação no asfalto. Sem sinalização ficamos sem saber se iriamos para a direita ou esquerda. Desta vez resolvemos esperar por alguém que nos orientasse. Logo um garoto surgiu e nos ajudou. Dali foi fácil  chegar ao Porto para seguir de balsa.

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Depois da travessia, é asfalto sem acostamento até Cananeia. Logo depois do portal da cidade é só seguir a avenida por uma ciclovia bem simples e chegar ao centro. Que estava muito animado e colorido devido ao Carnaval. Foi sentar e ver a banda passar!

Cananéia é por alguns considerada a cidade mais antiga do Brasil (5 meses antes da fundação de São Vicente) mas por falta de documentação oficial que comprove tal fato, São Vicente é oficialmente a cidade mais antiga do Brasil. Atualmente, o Centro Histórico de Cananéia ainda preserva os estilos arquitetônicos adotados pelas primeiras casas desde o período colonial até o final do século XIX.

 Igreja de São João Batista 

Situada na praça central, foi construída em 1577 para servir de fortaleza contra invasores. A parede é espessa e constituída de calcário retirado de conchas e de óleo extraído da gordura de baleias que eram caçadas ao redor da Ilha do Bom Abrigo. Pena que estava fechada.

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Casarios, construídos no final do século XVIII e início do século XIX. As paredes das residências eram construídas com pedras e argamassa composta de areia, cal de ostras retiradas dos sambaquis e óleo extraído da baleia.

e o pedal do dia  foi assim…  com direito a pedalar pela estrada mais antiga do Brasil, cachoeira, travessia de balsa, cerveja gelada vendo a banda passar e um por do sol de tirar o fôlego. O dia se foi e nos também. seguimos para o Hotel Golfinho ( www.golfinhoplazahotel.com.br)onde esperaríamos pelo próximo dia!!!!

3 º dia : Cananéia a Ilha Comprida

do Boqueirão Sul ao Boqueirão Norte

A balsa de Cananéia para Ilha Comprida sai a cada hora cheia nos dias de semana e a cada 30min nos fins de semana. Como estávamos em pleno carnaval a cada trinta minutos havia uma. Bicicletas e pedestres não pagam para atravessar. A travessia leva cerca de dez minutos  e normalmente é bem tranquila e a vista de Cananéia da balsa é linda.

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Da balsa até a praia dá um pouco menos de 4km, depois há um pequeno trecho paralelo  a praia ,para finalmente  seguir pedalando  na areia da praia.

Nós não verificamos o horário da mare, mas demos sorte ela estava baixa. (Não aconselho sair sem verificar tábua de maré, verifique sempre o melhor horário para o pedal.) A areia bem rígida, fez com que o pedal seguisse tranquilo e quase nem percebemos quando nos aproximamos da vila caiçara de Pedrinhas. Outro fator que nos ajudou foi o vento a favor.

Em Pedrinhas conversando com os locais eles nos aconselharam seguir pela praia, segundo eles com a mare baixa era possível chegar tranquilamente a Boqueirão pela praia.  Eles, o dia lindo, a temperatura agradável e a brisa do mar nos convenceram seguir pela praia.

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Próximo ao Boqueirão Norte há presença de casas e pessoas, ainda de forma espalhada.

A presença humana aumenta exponencialmente a medida que o centro da cidade e meta do pedal se aproxima, mas o trafego de veículos apesar de aumentar é muito pequeno e o pedal é tranquilo até o final.

A praia fervilhava devido ao carnaval, passamos “correndo” e seguimos pela ciclovia até a Oficina de Turismo na rodoviária. Retiramos nossos certificados e seguimos para Iguapé ,onde deixamos nosso caro.

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O Brasil tem lugares lindos para pedalar e explorar!!!! O CIRCUITO LAGAMAR É UM DELES!!!!

 

 

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6 Comments

  • Reply teresa 1 de abril de 2017 at 18:47

    parabéns Vera!!! Esse circuito está nos meus planos, bjos
    Teresa (circuito pracinhas, Itália 2015)

    • Reply Vera Marques 2 de abril de 2017 at 12:21

      Oi Teresa obrigada pela visita.O blog tem o objetivo de incentivar o cicloturismo uma forma diferente de explorar lugares e que permite uma interação maior.O circuito Lagamar-SP é muito tranquilo.Va e aproveite.Abds

  • Reply Thiago e Flávia 2 de abril de 2017 at 00:14

    Muito legal. Parabéns. Já foi ao encontro nacional de cicloturismo?

    • Reply Vera Marques 2 de abril de 2017 at 12:18

      Oi Thiago obrigado!!! O objetivo com o blog é realmente incentivar​ o cicloturismo.Eu tenho ido no encontro em Campos de Jordão do Clube de Cicloturismo. Abs

  • Reply Carlos Eduardo de Lima Almeida 16 de agosto de 2017 at 08:14

    Nossa que lindo ótima rota paisagens lindas exelentes fotos relato que vontade que da sair já para pedalar……

    • Reply Vera Marques 16 de agosto de 2017 at 12:51

      Oi Carlos obrigado por visitar o blog.Que bom que gostou.Abs

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