CICLOVIA DO DANÚBIO

CICLOVIA DO DANÚBIO ATRAVESSA 8 PAÍSES NUM CENÁRIO ENCANTADOR, mas eu segui por apenas 4 deles.

O Rio Danúbio nasce na Floresta Negra (Alemanha), atravessa 8 países e diversas capitais até desaguar no Mar Negro depois de percorrer 2875 quilômetros. O Danúbio é o segundo maior rio da Europa e sua ciclovia é uma das mais famosas rotas para cicloviagem da Europa. Tem tudo que um cicloviajante sonha: é plana, possui lindas paisagens e rico patrimônio cultural.

A ciclovia atravessa os seguintes países: Alemanha, Áustria, Eslováquia, Hungria, Croácia, Sérvia, Bulgária, Moldávia, Ucrânia e România.

Eu sai em uma viagem solo e percorri apenas 4 desses países – Alemanha, Áustria, Eslováquia, Hungria. Minha viagem teve início em Passau (Alemanha) e terminou na Hungria – Budapeste. Adoraria ter feito todo o percurso, mas confesso que não me senti segura em viajar sozinha de bicicleta por países como a Servia, Moldávia, România. e Ucrânia. Já visitei as capitais de alguns desses países, mas percorrer de bike suas estradas, não era uma situação que me deixava confortável.

Enfim, após várias considerações optei pelo trecho mais clássico e popular entre os ciclistas – o que percorre a   Euro Velo Route  6 ( https://en.eurovelo.com/ )  Foram 840 km percorridos de Passau a Bupapeste  , da fronteira da Alemanha até a Hungria.

A ciclovia não permanece o trajeto todo ao lado do rio. Em diversos trechos ela se distancia centenas de metros ou mesmo mais de um quilometro. Algumas vezes permanece do lado direito, e outras do lado esquerdo e ao atravessar pequenas vilas e cidades pode se confundir com outras ciclovias regionais. A sinalização a seguir é sempre a placa “Donauradweg” que em alemão na tradução literal quer dizer “Caminho de Bicicleta do Danúbio”.  

Mapa

Também é muito importante ter um bom mapa da ciclovia que pode ser adquirido facilmente na Alemanha. Os meus eu comprei pela internet (www.amazon.com) na fase de planejamento da viagem – antes de ir – Como viajo sozinha, gosto muito de estudar os mapas antes de um percorrer uma rota.

Também estão disponíveis Informações sobre a ciclovia do Danúbio no  site https://www.donauregion.at/radfahren-am-donauradweg.html

Apesar de atravessar uma região montanhosa, a ciclovia foi traçada de forma a manter uma altimetria plana. Atravessa parques nacionais, campos, vilas, cidades medievais, mosteiros, igrejas seculares e diversas capitais como: Viena, Bratislava, Budapeste.

A Bike

Desta vez optei em alugar a bike. Em uma pesquisa na internet encontrei a possibilidade de alugar uma em Passau e deixar em Viena e a seguir alugar uma outra em Viena e deixar em Budapeste. Isso facilitaria muito minha logística de viagem e a relação custo/benefício também agradava.

Em Passau  entrei em contato com a  Fahrrad- Klinik (  https://fahrradklinik-passau.de/ ) por email e fiz uma reserva para 8 dias (custo de 110 Euros).Devolvi a bike em um local previamente combinado em Viena.

Em Viena aluguei outra bike – Pedal Power (www.pedalpower.at), por  8 dias e um custo de 110 euros. Todas as duas empresas foram prestativas e me forneceram mapas e orientações sobre o percurso.

As bicicletas são híbridas com 21 marchas. e em excelentes condições, quase novas. Junto com ela também vêm kit de reparo, bomba de encher pneu e cadeado. Atenderam muito bem as funções delas. Não tive nenhum problema, nem mesmo um pneu furado.

Como chegar

Sai de São Paulo em um voo com destino a Munique, cidade mais próxima de Passau – o ponto de partida.

De Munique um trem ( https://www.bahn.com/ ) me deixou na pequena cidade, onde daria início a minha cicloviagem. A duração de viagem foi de 2:15hs e custou 23 Euros.

O Ponto de partida

Passau, uma cidade interiorana, fica na fronteira com a Áustria, na confluência dos rios Danúbio, Inn e Ilz. Daí o apelido carinhoso de “cidade dos três rios”.

A paisagem em torno do Veste Oberhaus , castelo medieval e antigo mosteiro, é única. 

Veste Oberhaus é uma fortaleza fundada em 1219

Veste Oberhaus é uma fortaleza fundada em 1219

Ao seu redor, encontra-se o “triângulo das águas”, onde se pode observar como os três rios confluem. Os verdes águas do Inn, vindas diretamente dos Alpes, misturam-se às do Danúbio, azuis como nas valsas.O Ilz, um dos raros rios “selvagens” do país, vem de uma região pantanosa, e suas águas parecem escuras. Por este motivo, o Danúbio apresenta, ao longo de alguns quilômetros após a embocadura, nuances distintos na coloração de suas águas.

Explorando Passau

O centro histórico foi todo esculpido por mestres barrocos depois de um grande incêndio no século 17 – e hoje é formado por um interessante emaranhado de ruelas que vez ou outra se abre em praças e descortina lindas vistas dos rios.

O coração da cidade é a Catedral de Santo Estêvão, coroada por três grandes cúpulas verdes, onde está o maior órgão do mundo, com impressionantes 17 974 tubos e 233 registros. 

Catedral de Santo Estêvão

Catedral de Santo Estêvão

É, também, a igreja barroca de estilo italiano mais importante na Alemanha. Por muitas décadas, sua decoração foi determinante para o direcionamento das artes no espaço cultural na região do Danúbio.

Hospedagem em Passau : Hotel Wilder Mann.

1ª ETAPA – PASSAU – OBERMUHL 52,7 KM

Após a visita a Passau, chegou a hora de partir e havia duas possibilidades diferentes: seguir o lado direito do rio, em solo austríaco, ou o lado esquerdo, do lado alemão. A distância  é aproximadamente a mesma, em ambos os casos 26 km para chegar à cidade de Engelhartzell, no lado esquerdo do rio. No primeiro caso, era cruzar a fronteira austríaca e pedalar por uma estrada federal, não muito movimentada; no segundo caso, a ciclovia atravessa a Reserva Natural Bávara de Donauleiten, por 25 km em terra alemã. As duas rotas como um todo são equivalentes à quilometragem.

Deixei o hotel e segui em direção a rua Schustergasse,chegando a Praça – Rathausplatz ( centro histórico) ,dali  segui às margens do Danúbio; depois foi preciso atravessa-lo através da ponte  –  Luitpoldbruche , dominado pela poderosa fortaleza do Castelo Veste Oberhaus; depois atravessei um túnel e a ponte sobre o rio Ilz.

Finalmente cheguei a margem esquerda do Danúbio  – por onde decidi seguir. A ciclovia corre no lado direito da estrada, ao lado do rio. Sempre ao longo da estrada, mesmo que bem separados, o tráfego e o barulho incomodaram um pouco. No entanto, depois de atravessar a cidade, a beleza do rio e sua paisagem muda e torna  o pedal muito agradável .

Obernzell

A primeira cidade que parei foi Obernzell , anteriormente chamado Hafnerzell ou apenas Zell. Com poucas ruas bonitas, cantos pitorescos e um longo passeio no Danúbio, tem também um castelo.  Hoje, o prédio abriga o museu de cerâmica. Infelizmente fechado no momento que lá estava.

A sinalização da ciclovia nesse trecho  é  R1, não EUROVELO 6.

Continuei  pedalando, por uma área absolutamente linda de floresta e falésias, com o Danúbio fluindo suavemente. Ao longo do caminho , existem pequenas cidades na outra margem, uma vista  que deixava o percurso muto prazeroso.

Logo cheguei ao circuito no Danúbio na Schlogen. Onde o terreno de granito força o Danúbio a fazer uma curva extremamente fechada e volta a si mesmo antes de voltar novamente a fluir para o leste. 

A programação do dia era fazer uma trilha alia  Linetshuber Aussich – onde a vista da curva do Danúbio do alto impressiona . E o plano, também  era pernoitar em Schlogen . Mas, nas proximidades do lugar, o tempo mudou e nuvens escuras apareceram , o que impossibilitou a minha caminhada pela trilha até o topo. O hotel disponível no local tinha uma diária que não cabia no meu bolso. A próxima cidade com disponibilidade de hospedagem estava apenas a 9 km – Obermuhl. Então, decidi seguir.

De Schlögen, segui por uma estrada pavimentada de pista única, que ainda é usada por alguns veículos na até Inzell, foi preciso ter cuidado ao ultrapassar outros ciclistas, pois muitas curvas são estreitas. Depois de Inzell os carros são proibidos de usar o caminho, o espaço para a pista permanece entre o rio e a montanha. 

Nesse ambiente, absolutamente favorável, continuo seguindo o rio até chegar à vila de kolbling,  onde fica o ferry para Obermuhl . Ao longo do percurso muitas frutas a beira da estrada.

Logo chegou o ferry, que me levou por 1.50 Euros para o outro lado da margem onde estava Obermuhl. Desembarquei e segui para o hotel.

Fiquei hospedada no Gasthof Gerhard Gierlinger um hotel de gerencia familiar,muito agradável. A vista do rio dali , era simplesmente incrível.

Hoje durante o trajeto passei por vários ciclistas.

2ª ETAPA – OBERMUHL – SCHLOGEN – LINZ – 78,0KM

Na manhã seguinte, logo cedo atravessei novamente para o outro lado da margem, o dia ensolarado e a ideia fixa de percorrer a trilha –  Linetshuber Aussich, fez com que eu retornasse a Schlogen. 

Deixei minha bike no início da trilha e segui. Foi uma caminhada íngreme, em meio a uma floresta muito bonita. Cheguei ao topo, mas a vista estava encoberta por árvores e a paisagem que vi – ainda que linda -, era distante das fotos que havia visto nos cartões postais. Mas, valeu a pena, o ar da floresta me deixou renovada para seguir em frente.

Continue pacificamente ao longo do Danúbio até chegar à cidade de Ashbach. Um lugar surpreendentemente bonito. Havia uma longa calçada e parque ao longo da margem do rio. Percorri a avenida por um quarteirão no interior do distrito comercial, procurando uma mercearia. Me abasteci de frutas e segui pedalando.

A ciclovia deixa o Danúbio e segue um pouco para o interior através de uma bonita paisagem rural. Os sinais para R1, não EUROVELO 6, são claros de seguir, embora às vezes pareça que você está indo em uma direção errada.

Os últimos quilômetros antes de chegar à cidade de Linz – a terceira maior da Áustria, a ciclovia é colada a uma estrada com muito trânsito e muito barulhenta. 

A chegada  foi um pouco complicada. Pedalei um pouco sem rumo pelas ruas da cidade até chegar em uma grande ponte e, finalmente, atravessar e chegar ao centro da cidade. Tinha um endereço de hospedagem, então pedi informações e segui em direção do hotel. 

Linz

Linz é uma cidade cultural e moderna. Explorei a cidade passando por sua praça principal, uma das maiores da Europa, e Martinkirche, a igreja mais antiga da Áustria, preservada em seu estado original.

Martinkirche, a igreja mais antiga da Áustria

Martinkirche, a igreja mais antiga da Áustria

Hospedagem : City Hotel.

3ª ETAPA – LINZ – WALSSE – 48,7 KM

Ao deixar Linz, continuei por uma ciclovia ao longo do Danúbio, o percurso segue por uma região rural.  

Logo vejo uma placa indicativa para Mauthausen – onde está localizado o campo de concentração nazista de mesmo nome, agora transformado em memorial. 

Os guias de viagem, recomendavam uma visita ao local, mas eu estava relutante. Já havia visitado outros campos de concentração antes e o impacto causado não era uma experiencia que gostaria de reviver. Também já havia visto o filme “O fotografo de Mauthausen” sobre um ex-soldado e fotografo e foi designado, pelo comando nazista, a fotografar exatamente tudo o que acontecia no campo. Decididamente, não estava, naquele momento pronta para visita-lo.

Então segui pedalando por linda paisagens austríacas . Logo depois, (5km) cheguei a Au  an der Donau. Lá há um camping ( Camping & Pension) com uma infraestrutura excepcional. Há restaurantes e bar. Então,decidi parar para contemplar, almoçar e depois descansar em uma rede disponível ao lado da ciclovia.

Depois do descanso, continuei pedalando, completamente surpresa com a qualidade das ciclovias e com as despesas que o governo austríaco pagou para oferecer ciclovias seguras.  

Meu objetivo hoje era chegar em na cidade de Wallsee. Objetivo alcançado já no fim do dia, então segui direto para o hotel, localizado no alto de uma colina.

Segui pelas ruas. Havia algumas subidas, embora não fossem muito íngremes, eram subidas. Assim foi até chegar ao hotel.

Hospedagem – Gasthaus Hehenberger.

 

 

4ª ETAPA – WALSSE – GREIN – YBBS 47,3 KM

Na manhã seguinte , explorei a pequena cidade de Wallsee e depois continuei pedalando,

até chegar em Grein.

Parei em um restaurante para almoçar e descobri uma especialidade austríaca, a pancake soup. Tem este nome porque no caldo colocam uma espécie de massinha frita, que lembra panqueca. Adorei!

Na cidade, há um belo Castelo de Greinburg no topo de uma colina. Deixei minha bike em frente ao restaurante e fui explorar o castelo e a pequena cidade.

Interior do castelo

Um destaque especial ao visitar o Castelo de Greinburg é a “Sala Terrena”, também chamada “Stone Theatre”, construída em 1625 sob a direção do conde de Meggau (seu brasão faz parte da decoração do teto). A sala toda é um  mosaico de seixos do Danúbio que cobrem toda a superfície das paredes e o teto abobadado. Impressionante!!!!!

A vista da colina onde esta o castelo.

Dali, o vale se estreita para o Strudengau, um trecho muito conhecido pelos marinheiros por seus redemoinhos perigosos. Segui pedalando pela extensa planície de Machland, onde a paisagem é muito variada .

Continuei até a pequena cidade de Ybbs.

A cidade abriga um dos museus mais interessante que vi – claro, para quem gosta de bicicletas -, o   Fahrradmuseum (o museu da bicicleta), que conta a história da bicicleta ao longo dos séculos, com peças de época e reconstruções.

5ª ETAPA – YBBS – MELK – KREMS -75 KM

Seguindo a viagem, parei na cidade de  Melk , com sua imensa abadia beneditina do século XVIII, como uma joia de ouro no topo de um penhasco com vista para a cidade. Pedalei por um pequeno caminho e por ruas de paralelepípedos para me aproximar da majestosa construção.

Tranquei a bicicleta e passei um tempo explorando a abadia beneditina. O interior da abadia era tão intrincado em detalhes quanto era do lado de fora e algumas áreas do edifício o deixaram hipnotizado com sua arte luxuosa decorando suas paredes e tetos.

De Melk segui, agora com destino a Krems. Os quase 40 quilômetros que separam as duas cidades, sempre às margens do Danúbio, são recheados de vilinhas coloridas cercadas de vinhedos que sobem as montanhas e vão ao encontro de fortalezas e imponentes ruínas de castelos.

Continuei ao longo do rio, atravessando a região Wachau, passando belos vinhedos e pequenas aldeias. Cruzei o vilarejo Willendorf que se tornou famoso pela descoberta da estátua Vênus de origem Paleolítica – uma figura feminina de 11 cm de comprimento, feita de pedra de giz e estimada em 25.000 anos atrás (em exibição no Museu de História Natural de Viena). 


Dali segui em direção ao meu destino final – Krems.

Krems é uma histórica cidade vitivinícola, muito tranquila que está à margem esquerda do Danúbio. Em frente a Krems, sobre uma bela colina, fica a majestosa abadia de Göttweig, fundada pelos agostinianos em 1074.

6ª ETAPA – KREMS – TULLN – 58KM

Deixei krems logo pela manhã, um desvio na estrada fez com que eu seguisse em direção errada. Só percebi o erro 10 km depois, quando cheguei em uma rodovia movimentada. Conferi meu mapa e voltei. Logo depois encontrei um senhor que confirmou meu erro e me indicou o caminho certo.

Perto novamente de krems, voltei a pedalar ao longo da margem esquerda do Danubio até Alternworth Dam, onde a estrada obriga a cruzar para o lado direito do rio.

Pelo lado direito do rio continuei até a histórica cidade de Tulln, também conhecida como a cidade das flores e local de nascimento de Egon Schiele – importante pintor austríaco do começo do século XX.

Em um passeio pela cidade é possível visitar os locais de infância do pintor, incluindo seu local de nascimento. O Museu Egon Schiele construído dentro de uma antiga prisão, conta a história do artista com fotos e objetos da época e abriga exposições temporárias. 

Hospedagem – Hostelling Internacional

7ª ETAPA – TULL – VIENNA – 54 KM

Após deixar a cidade de Tulln, segui ao longo da margem sul até Greifenstein, onde mais uma vez atravessei o Danúbio para continuar ao longo da margem norte até chegar à cidade de Langenzersdorf, onde, através de uma ponte, cheguei na Ilha do Danúbio.

 Logo alcancei uma ciclovia, na margem esquerda do rio,por onde continuei até chegar na cidade.

Stadtpark um belíssimo parque. Um dos lugares mais fotografados do parque é o monumento a Johann Strauss

Stadtpark um belíssimo parque. Um dos lugares mais fotografados do parque é o monumento a Johann Strauss

Chegar de bicicleta a uma cidade como Viena é uma experiência única, ainda mais nesta pequena capital europeia cheia de história e cultura em todas as ruas e avenidas.

A cidade tem  uma rede de ciclovia que permite percorre-la com relativa facilidade em toda parte e visitar todos os principais locais de interesse histórico e artístico.

O único problema é que – depois de tantos quilômetros ao lado do Danúbio e do silencio – aqui foi preciso lembrar de permanecer constantemente concentrada, porque estava pedalando ao lado de um transito intenso. Afinal havia chegado na cidade grande.

Para percorrer o trecho  de Passau até Viena pedalei 422,19 km.  Foram dias muito tranquilo e memoráveis!!!!!!

Trecho a  seguir agora será : Viena a Budapeste.