CIRCUITO DAS ARAUCÁRIAS

Após 120 dias de isolamento, tudo que eu queria era mudar de cenário, arejar os pensamentos e recalibrar as energias. Mas, em tempos de pandemia o importante era zelar pela minha segurança, sem deixar de respeitar o necessário distanciamento social. Então  para onde ir? Como?

O desejo de  conectar-me com a natureza, depois de meses enclausurada só aumentava dia após dia. Sonhava com o verde da mata. Pois é, na cidade que moro infelizmente não temos parques : árvores, sombras e ar fresco são raros por aqui.

Foi aí que o inusitado aconteceu; na tarde do dia 24 de agosto, recebo uma mensagem de um amigo – Marcelo Marques amante do ciclismo. Nós já havíamos pedalado junto o Caminho das Missões com um grupo de amigos. A mensagem era um convite   para pedalarmos o Circuito das Araucárias. E como sou uma pessoa que não recusa um convite – principalmente se for para pedalar e com a possibilidade de sair do enclausuramento – fui logo aceitando.

Mas, em época de pandemia, para viajar com segurança e consciência tranquila foi preciso observar alguns critérios: as pousadas tinham condições de nos receber com conforto e protocolos de biossegurança?  Havia estrutura hospitalar adequada e próxima ao percurso? Que condições nosso destino se encontrava em relação ao vírus? Os lugares estão abertos com restrições bem definidas e cumpridas?

Afinal, a gente sabe que aglomerações estão fora de cogitação em qualquer modo racional de se enfrentar a pandemia. Enfim, eram muitas as perguntas. Então o Marcelo Marques e a Dani, foram em busca de respostas.

Eles ligaram em busca de informações, para a Eloah Kresko e Emerson Schoeffel – pessoas que sempre estiveram engajadas com o projeto do Circuito. Eles foram bastante prestativos, atenciosas e nos tranquilizaram quanto aos nossos receios.

O circuito  aberto  aos visitantes

Para nossa alegria e segurança o Circuito estava aberto e com normas de biosseguranças muito bem estabelecidas.  As pousadas e tudo funcionando com 40% da capacidade usual. Os restaurantes adaptados aos novos tempos.

Enfim, o grupo que havia pedalado juntos o Caminho das Missões, foi aos poucos aderindo ao convite do Marcelo.  O grupo estava formado: oito pessoas – 6 ciclistas (eu, Cineide, Marcinha, Marcelo, Reinaldo e Wagner e duas pessoas (Dani e Nilson Sedex) no apoio. A data também definida 12 de setembro de 2020.

Com toda logística preparada pelos amigos Marcelo Marques e Dani, as bagagens conferidas, estoque de álcool gel, mascaras e bikes revisadas; foi só seguir rumo a mais uma rota de bicicleta do Brasil – O Circuito das Araucárias

O Circuito

No norte de Santa Catarina, o Circuito das Araucárias é um roteiro repleto de atrativos naturais, históricos e culturais.  Ele foi elaborado a partir de uma parceria entre o Clube de Cicloturismo ( http://www.clubedecicloturismo.com.br) e a Associação de Municípios Consórcio Quiriri.  ( https://quiriri.com.br )

São 250km estradas de terra – início na cidade de São Bento do Sul – SC passando pelos municípios de São Bento do Sul, Corupá, Campo Alegre e Rio Negrinho. O percurso totalmente sinalizado foi planejado para ser autoguiado e percorrido em 6 a 8 dias. O grau de dificuldade físico é alto. Os trechos entre serra e vales apresentam constantes mudanças climáticas, diferentes modelos de pressão atmosférica e grande quantidade de subidas e descidas, sendo a maioria delas em trechos de estrada de chão e as vezes com pedras.

As planilhas do circuito estão disponíveis num guia impresso e também no site do circuito https://circuitodasaraucarias.com.br/cicloturismo, onde constam os perfis altimétricos, com as subidas e descidas de cada trecho. 

O circuito é muito bem sinalizado, mas recomendo a utilização do mapa oferecido no site do circuito em diversos formatos: circuitodasaraucarias.com.br/roteiros, pois encontramos alguns trechos onde a ausência das placas fizera falta.

Mas, observamos também que nesses lugares, haviam as famosas “setas amarelas”, que para quem sabe o que significa ou percebe que elas complementam a sinalização fica tranquilo; porém para quem não sabe, com certeza terá dificuldade. A Eloah Kresko ( analista Ambiental do Consórcio Intermunicipal Quiriri )me disse que todo ano é feita a contratação de uma empresa para coordenar o trabalho de manutenção do percurso. Mas, que esse ano devido a pandemia isso ainda não ocorreu. O que justifica a ausência de algumas placas.

PONTO DE PARTIDA: SÃO BENTO DO SUL

É a maior cidade do circuito e marca o km “0”. Seus primeiros habitantes vieram da Áustria, Bavária, Prússia, Polônia, Saxônia, Tchecoslováquia e mesmo do Brasil. Enfrentaram uma realidade dura: mata virgem, floresta densa, povoada por inúmeros animais e pássaros.

Foi preciso muita coragem e vontade de trabalhar para construir ali uma réplica ao menos parecida com a pátria que deixaram. Hoje na cidade, seus atuais habitantes (com pouco mais 84 mil), vivem principalmente da indústria e do turismo.

A cidade localiza-se em uma região de transição entre o complexo da Mata Atlântica, nas encostas da Serra do Mar  e os  campos de floresta subtropical de araucárias. Exatamente o que dá a beleza ao circuito. Os organizadores do circuito foram felizes com o traçado da rota.

 1º DIA :  SÃO BENTO DO SUL / ROTA DAS CACHOEIRAS / CORUPÁ

Primeiro dia de pedalada é sempre o mais confuso, ainda não estávamos no ritmo da cicloviagem, e acabamos levando mais tempo até alinhar tudo. Afinal éramos oito pessoas e antes de partir vários itens precisam ser observados, tanto na parte mecânica como objetos necessários para passar o dia.

Deixamos o Hotel Miraflor por volta das por volta das 9h30 em direção a  praça central de São Bento do Sul, local do marco zero do circuito. Na mesma praça localiza-se o prédio da secretaria de turismo, onde  A Dani e o Marcelo já haviam retirado o folder oficial, que possui informações importantes, e que serve também para os carimbos de cada um dos 8 trechos.

Os carimbos servem como registro de que o cicloviajante passou pelo local, e com isso receba um certificado de conclusão ao final. Particularmente, os carimbos e certificados não me chamam atenção, mas sei que sou exceção.

Deixamos a praça e seguimos para o nosso primeiro dia de pedalada. O objetivo do dia: chegar à Rota das Cachoeiras.

Apesar de São Bento do Sul, não ser uma cidade grande, tivemos um pouco de dificuldade de encontrar o início do percurso. E, logo na saída uma das bicicletas teve o seu pedal danificado.

Muita sorte, pois ainda estávamos na cidade, e isso possibilitou um concerto rápido e nos deu a oportunidade de conhecer o Sr.Haskel  – o dono da oficina de bicicleta . Ele é descendente de polonês (a influência alemã, polonesa e italiana, é grande na região) e tinha muitas estórias para contar sobre sua belíssima bike:  Monark  Varberg Sueca da década de 40, exposta em sua oficina.

Enfim, encontramos a saída.

De lá, com a ajuda do GPS conseguimos encontrar a estrada que nos levaria para fora da cidade, para de fato termos a sensação de que o circuito havia começado.

Cerca de meia hora depois já estávamos em uma estrada completamente vazia, cercada de mata, acompanhando um belo rio. Não demorou e encontramos a primeira queda d’água, com um visual de encher os olhos, porém, não estava acessível. Me contentei com as fotos, e com o registro na memória, e segui em frente com o restante do grupo.

A estrada seguia, sobe, desce, sobe.  O que já nos dava uma ideia de como seria os dias seguintes. O primeiro dia, apesar de apresentar um pouco de dificuldade, começou com mais descidas do que subidas.

Pedalando um pouco mais, chegamos a Estrada Saraiva, um lindo e longo percurso em descida. São cerca de 10Km rodeados por Mata Atlântica, onde o isolamento é quase completo. Tudo que se ouvia ali era o som do rio descendo pelas pedras.

Logo avistamos uma montanha que se destacava das demais, de beleza incrível, ela ia sempre aparecendo aqui e ali. A montanha é de uma das atrações da cidade de Corupá : o   Morro da Igreja.

Morro da Igreja -Corupá

Morro da Igreja em Corupá, é avistado diversas vezes durante os primeiros dias de circuito.

Em alguns pontos a descida era bem íngreme, com pedras grandes e soltas.  Foi preciso muita atenção. Avançamos mais um pouco e passamos por uma ponte; dela a vista foi magnifica. 

Início da subida para o entroncamento com a BR-280, a maior do dia.

A partir de lá enfrentaremos a maior subida do trecho, com pouco mais de 6km e depois mais uma descida.

Ao final da descida, chegamos ao fim do trecho 1, que fica na entrada do parque da Rota das Cachoeiras.

Havíamos programado uma visita a cachoeiras, mas a saída tardia se São Bento do Sul (11h) nos impossibilitou de vê-las. Chegamos na entrada da Rota das Cachoeiras já quase noite. Havíamos feito um reserva para uma pousada próxima dali.

Mas a noite tudo fica mais difícil não encontramos o lugar. Bem em frente ao marco do trecho 1 há um restaurante:  Restaurante Rio Novo.  Nele perguntamos sobre a pousada, mas, ninguém sabia informar a direção ou a conhecia. Estávamos sem sinal de celular.

A distância a ser percorrida de bike até Corupá não era muito (15km). Mas como era noite e estávamos com carro de apoio, decidimos partir para o plano B: iriamos de carro até Corupá, onde encontraríamos um lugar para pernoitar e na manhã seguinte voltaríamos para iniciar o trecho 2. Isso para que nenhum pedacinho do circuito ficasse sem ser pedalado.

Enfim, chegamos a Corupá, ansiosos por um banho, e por algo para comer. A Dani já havia encontrado o hotel e organizado tudo. Ficamos no Hotel Tureck Garten.

Alimentados, encerramos a jornada do dia, com um boa noite de sono.

2ºDIA :  ROTA DAS CACHOEIRAS / PARQUE DAS AVES

Logo no início do trecho do dia, foi impossível não notar as plantações de bananas, que aparentam ser um dos principais cultivos da cidade, são quilômetros e mais quilômetros de bananas para todos os lados.

Seguimos pedalando uma boa parte do caminho acompanhando o rio, o que fez a pedalada ser bem agradável. Havia subidas curtas, porém íngremes e apesar de não cruzarmos nenhuma serra, o percurso exigiu uma certa dose de esforço.

No dia de hoje, estrategicamente optamos por percorrer o trecho 2 e 3 do guia – um trecho curto apenas 28km. Um dia para descansar e nos prepararmos para o dia seguinte. Pois é, estávamos praticamente no nível do mar, sairíamos de cerca de 61 metros de altitude, e alcançaríamos 1100 metros, o ponto mais alto dos 250 quilômetros de circuito, desnível equivalente à famosa Serra do Rio do Rastro, só que em vez de asfalto, estrada de terra. Sim, era o que o dia seguinte reservava para nós. Então fomos tranquilos e bem devagar.

Parque das Aves

Prosseguimos pedalando até o Parque das Aves. Ali há também há uma pousada, mas, infelizmente estava fechada devido a pandemia. Então utilizamos a estratégia do primeiro dia: usar o carro de apoio para voltarmos a Corupá e no dia seguinte retornar ao Parque e iniciar ali o percurso do trecho 4.

No caminho encontramos vários ciclistas locais pedalando pela estrada (talvez por ser domingo). Conversando com uma ciclista ficamos sabendo do restaurante Ruda, bastante recomendado, não só pela comida, mas também pela vista que o ele proporciona.

Estávamos indo em direção a ele, quando encontramos com pessoas que nos disseram que infelizmente o restaurante estava fechado devido a pandemia. Ainda não estavam preparados para receber. Então eles nos indicaram um bar próximo dali e o único aberto: o Sininho. E foi nele que passamos parte do domingo. Comida boa, cerveja gelada e muita conversa afiada.

Enquanto conversamos, um dos nossos amigos percebeu que minha bike estava com dois raios quebrados. Sim e eu nem percebi e nem sei em que momento aconteceu. Foram tantos os buracos e curvas que fica difícil imaginar aonde o fato ocorreu. Essa foi a primeira vez que algo assim aconteceu.

De volta a Corupá nos dirigimos para o mesmo hotel da noite anterior.  Lá o Marcelo e o Nilson foram em busca de um lugar onde fosse possível consertar os raios da bike. Lembrando era um domingo, mas não foi difícil encontrar uma pessoa amável e disposta a abrir sua oficina para atendê-los.

Descansados, usufruímos de um bom jantar, vinho, muitas risadas e uma boa noite de sono.

3º DIA PARQUE DAS AVES / CASA ANTIGA

O terceiro dia prometia ser de desafios, o maior deles seria a subida da serra, com 1100m de altitude.

Seis quilômetros depois do início da pedalada, seguimos morro acima, onde logo em seguida surgiu um dos trechos mais inclinados da viagem, curto, não devia ter mais que 200 metros, porém realmente difícil, devido pedras soltas somados à inclinação da subida.

A subida não acabava, apesar de um alívio em alguns quilômetros de plano, ainda restava um bom trecho para alcançar o destino final do dia: a Pousada Casa Antiga.

O dia lindo de sol permitia vistas lindas, o que compensava o esforço. Com o tempo aberto, as curvas da estrada davam visuais maravilhosos, o que era uma boa desculpa para parar e descansar ou fotografar.

Mas, antes de chegar a Campo Alegre tivemos mais uma longa subida, a Serra do Gatz, com cerca de 3km. De lá para frente foi só alegria, uma descida única, até Campo Alegre. Se levamos mais de 4 horas para subir a serra, a descida não levou mais de 5 minutos! Mesmo assim, a sensação de desafio cumprido foi ótima.

Nós não entramos na pequena cidade de Campo Alegre, cansados seguimos direto para a Pousada Casa Antiga, localizada a 13,8km adiante. No trecho de Campo Alegre a Casa Antiga ainda tivemos um sobe e desce. No entanto bem mais suave, se comparado com o trecho anterior.

A Pousada Casa Antiga fica no final de uma descida em curva, ou seja, o embalo foi tão bom que passamos direto, mas logo percebemos o erro.

Pousada Casa Antiga

Chegamos à Pousada e logo adoramos, o lugar é um charme, rodeada de verde por todo os lados, com montanhas, riacho e cascata. A casa que ficamos hospedados em uma centenária casa colonial. Fiquei imaginando como viviam no passado longínquo as pessoas ali.

Cachoeira na Pousada Casa Antiga

Na pousada a Cristina e sua mãe Rozemar – pessoas amáveis – elas nos aguardavam, com belo café colonial. Uma recepção difícil de descrever diria que a estadia no sítio foi o ponto alto da viagem. Uma simplicidade que encanta.

 

Como disse o planejamento da viagem foi da Dani e o Marcelo. Ela já havia entrado em contato com a Cristina e providenciado tudo com antecedência.  Sim, é preciso, sem reserva prévia, nada se faz no circuito. Se quiser hospedagem ou refeições, ligue para reservar pelo menos um dia antes.

DIA 4: CASA ANTIGA AO SÍTIO PONTE DE PEDRA

O objetivo do dia era pedalar todo o trecho 6, até o Sítio Ponte de Pedra, seriam 41 quilômetros, com 1000 metros de altimetria acumulada! Pedalamos os primeiros 10 quilômetros e a sensação é que tinha sido muito mais do que isso. É um trecho que a pedalada não rende muito, com dezenas de pequenas subidinhas.

Nos primeiros quilômetros do dia, passamos pelos trechos históricos da Estrada Dona Francisca, construída em 1865 e que é um dos destaques da parte histórica. O nome vem da Princesa Dona Francisca, irmã de Dom Pedro II, que recebeu como dote as terras da região. A estrada foi construída com o intuito de ligar a então Colônia Dona Francisca (hoje cidade de Joinville) ao planalto.

Foi a segunda via carroçável do Brasil e o primeiro trecho foi inaugurado ainda no tempo do Império, em 1865. Em lombos de burros e carroções, desciam erva-mate e madeira e subiam couro e outros produtos.

A estrada aparece e desaparece em diversas partes do circuito, entre Campo Alegre, São Bento do Sul e Rio Negrinho. Alguns trechos ainda com seu traçado original, da época do governo imperial

Em alguns momentos do percurso a estrada acaba na rodovia e seguia do outro lado. As vezes sendo necessário pedalar um pouco no acostamento para depois encontrar a estrada de terra novamente. É preciso atenção com a rodovia, ela é movimentada, e também para não perder da continuação da estrada do outro lado da via.

Muitas vezes o local está sinalizado com as famosas setas e X amarelas. O X significa “não vá” e a seta “siga”.

 Uma parada na fabrica de bolacha

Nesse trecho do dia, combinamos uma parada em uma fabrica de bolachas artesanais – Delicia da Lola. Uma decisão acertada, as bolachinhas estavam deliciosas, uma variedade enorme e o atendimento acolhedor.

Antes de chegar lá eu havia visto próximo dali uma igrejinha e queria muito visita-la. Para não atrasar o grupo decidi sair antes da fábrica e parar no local. Meu erro gigantesco foi que esqueci de avisar o grupo a respeito da parada. Eles chegaram antes ao destino final e meu atraso causou preocupação, ou seja, nunca deixe de avisar o grupo sobre uma decisão individual. Me desculpei com o grupo.

A paisagem seguiu magnífica, com muitas araucárias e fazendas de criação de ovelhas e cavalos até chegarmos a Pousada Ponte da Pedra.

Outra surpresa maravilhosa, um o sítio muito acolhedor. A Hariet e o Gabriel proprietários do sítio nos atenderam com muita simpatia e vontade de fazer com que nos sentíssemos em casa.

O sitio ainda preserva um casarão de madeira antiga com várias peças da década de 40 e 50. Antes era onde os hospedes ficavam,hoje já não hospeda ninguém , infelizmente. O único lugar que mantem ainda as características do inicio do sitio é um o celeiro que  hoje é um umo quarto de hospede. É um charme.

Nos acomodamos, jantamos, conversamos, e assim encerramos o nosso quarto dia de circuito.

DIA 5: DO SÍTIO PONTE DE PEDRA À RIO NEGRINHO

O quinto dia de viagem  de acordo com o mapa parecia para ser leve, oportunidade para descansar o corpo depois da longa subida de serra do terceiro dia  , que ainda podia ser sentida.

Como a distância até Rio Negrinho era curta, cerca de 35.40 KM, aproveitamos pra adiar a saída, e curtir mais um pouco da estadia no Sítio Ponte de Pedra.

Hariet, nossa anfitriã, preparou o café da manhã, com pães, bolachas e doces, todos caseiros e feitos por ela e por sua mãe. Estava uma delícia.

Enquanto todos se preparavam para partir, fui conhecer a ponte que dá nome ao sítio, nos fundos da propriedade. A ponte de pedra data do ano de 1884, também da época do império, e encontra-se em um dos trechos da Estrada Dona Francisca, que passa ao lado do sítio.

A ponte

Depois, avançamos com destino à Rio Negrinho, para o penúltimo dia de viagem. O caminho foi mais urbano de todos os trechos, passamos por dentro de bairros bem populosos e prosseguimos por estradas com as araucárias por todos os lados.

Comparado com os trechos anteriores, o trajeto do quarto dia estava até tranquilo demais, mas quando estávamos quase no final da pedalada, já próximo de Rio Negrinho, veio a boa surpresa do dia, começamos a entrar mata à dentro, com a estrada ficando mais e mais estreita, e quando percebemos estávamos no meio de uma agradável estradinha, isolada de tudo e de todos.

Era mais um trecho da Estrada Dona Francisca antes de chegar a Rio Negrinho. A estradinha é estreita e com o calçamento original de pedras. As copas das árvores ali se fechavam dando a impressão de termos voltado no tempo.

No final dessa estradinha, já foi possível avistar a cidade ao longe.

De lá pedalamos ainda um bom trecho, até bem próximo do centro de Rio Negrinho. Chegamos no marco final na praça da cidade.

Chegada em Rio Negrinho.

A Dani, já havia providenciado hotel, então fomos direto para lá.  Para chegar ao hotel foi preciso enfrentar mais uma razoável subida.

Ficamos na Pousada João de Barro. Fomos muito bem recebidos pela Denise que estava na recepção, e tinha na ponta da língua todas as informações que o cicloturista costuma pedir, antes mesmo de perguntarmos! Ela foi logo nos indicando onde deixar as bicicletas em segurança. Foi uma acolhida e tanto!

O hotel fica afastado do centro da cidade, mas havia perto um bom restaurante onde fomos jantar e comemorar mais um dia. Um lugar com uma boa cerveja artesanal e espetinhos deliciosas. Pena que a musica estava alta demais, para mim. Fiquei um pouco e deixei os amigos mais jovens e tolerantes ao barulho. Segui para o hotel, para uma boa noite de sono.

DIA 6: RIO NEGRINHO – SÃO BENTO DO SUL

Este último trecho não apresenta nenhuma grande serra, mas é o mais longo e o que tem a maior ascensão total de todos. Então combinamos de sair bem cedo. Quando acordamos percebemos que a noite havia chovido.

O dia ainda estava nublado e com garoa quando deixamos o hotel, mas não demorou muito o dia ficou novamente claro, com sol ameno e temperatura agradável. Não sabíamos se a chuva da noite anterior havia causado danos no trajeto. Iniciamos o percurso um pouco apreensivo.

A paisagem seguia bem diversificada, com muitas matas de araucárias, criação de gado e ovelha e reflorestamentos de pinus. Em alguns lugares as poças d’água e a lama, fez com que a atenção fosse redobrada.

No final do circuito estávamos em quatro ciclistas e cada um seguiu seu ritmo. Eu aproveitei e fui o mais lento possível, queria aproveitar os últimos quilômetros como se fossem os últimos da vida. Quando percebi já havia me distanciado bastante. 

Chegando em São bento do Sul

Cheguei em São Bento do Sul sozinha e segui direto para a Praça e tirar a tradicional foto “desafio cumprido”. 

Feito isso ainda explorei mais um pouco a cidade e para o hotel: o mesmo da primeira noite (Miraflor Hotel).

Novamente todos juntos e só nos restava era comemorar ao final de mais uma rota.

Longe de ser um roteiro fácil, o circuito das Araucárias na minha opinião, não é recomendado a cicloturistas iniciantes.

A exigência física é grande devido às subidas muito fortes e alguns trechos são muito isolados, o que requer experiência e autossuficiência em termos físicos e de mecânica de bicicleta ou seguir com carro de apoio como fizemos.

É um circuito altamente recomendável, é lindo e a estrutura é muito boa. As pousadas são acolhedoras e da vontade de voltar sempre.

Planeje com tempo, há muito do que usufruir: Rotas das Cachoeiras, Morro da Igreja, passeio de Maria Fumaça, Campos de Quiriri, Cascata Paraíso e Parque Natural das Aves.

Mas lembre-se todas as pousadas e estabelecimentos rurais necessitam de agendamento prévio, pois funcionam conforme a demanda. se você não fizer a reserva, é grande a chance de encontrar o estabelecimento fechado.

Planeje e vá, vale muito a pena.