De bike  por Perigord Noir, na França :

 entre grutas pré-históricas, vilinhas e castelos

Há algum tempo atrás conheci de bike a região de Provence – um roteiro de charme e com muitas pedaladas por entre as plantações de lavanda, os campos de girassol e os temperos típicos que aguçam os sentidos. (leia aqui).

Dessa vez escolhi conhecer  de bike o Périgord Noir  ou Dordonha, uma região que fica no sudoeste da França. É um lugar com cenários fantásticos, eu, uma amante da França não poderia deixar de explorar essa região de bike. A Dordonha tem tantas opções legais, como a gastronomia, seus castelos — é conhecida   como a terra dos 1001 castelos, é lá que se concentram as grutas com desenhos pré históricos e pinturas rupestres que parecem ter sido pintadas ontem. O Rio Dordonha é o que dá o nome a região, mas tem mais um punhado de rios que cortam diversos vales tornando a paisagem ainda mais bonita. Os franceses costumam chamar esta região de Perigord como era conhecida a região quando ali habitavam os gauleses.

Decidida a explorar a região de bike, fui em busca de informações a respeito de rotas que contemplasse essa região. Não encontrei nenhuma rota oficial, com mapas da França e região ou da EUROVELO (1,4,3,6,19 passam pela França). Encontrei infinitas rotas no site https://www.freewheelingfrance.com/ , alias esse site é perfeito para quem quer planejar qualquer viagem de bike, pela França.

Pesquisando

Depois de muitas pesquisas encontrei o site www.dordognecyclehire.com .Entrei em contato por e-mail  para perguntar sobre o aluguel de bicicletas no Dordogne e opções de roteiros. A Anne e o Mike foram muito atenciosos. Eles sugeriam uma rota, que me deixou feliz. O percurso seguiria por lugares em eu que tinha interesse em explorar como: La Roque Gageac, Sarlat, Rocamadour, Gruta Lascaux entre outros. Logo combinamos detalhes e agendamos para entrega da bicicleta na pequena cidade de Terrasson Lavilledieu porta de entrada para a região de Perigord Noir e do Vale Vézère – listado como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

O Perigord Noir

O Perigord Noir, realmente é uma região que estava ansiosa por percorrer de bike. Há 400 000 anos, foi um dos principais refúgios para os homens originários do leste e que fugiam a era glacial.

Também conhecida como sendo a região dos mil e um castelos. Dizem que é impossível contá-los.

É mundialmente conhecida pelos seus jardins. O Jardin de Eyrignac ou o Jardin de Marqueyssac. são extraordinarios

As pequenas cidades da região são lindas e dez cidades do Périgord fazem parte da lista das “Cidades mais bonitas da França”. Entre elas Beynac-et-Cazenac, Domme, Roque-Gageac. A cidade mais importante do Périgord Noir é Sarlat la Canéda.

O objetivo era percorrer distâncias entre 30 e 50 km onde a ideia além de pedalar, era usufruir a cultura local, fazer paradas estratégicas para conversar com habitantes locais, apreciar paisagens únicas, e outros detalhes que o local oferece.

Na França a cidade que escolhi chegar foi Bordeaux, eu não a conhecia e queria também explorá-la e visitar as Villas ao redor – principalmente Saint Emilion.

Place de la Bourse e a fonte Espelho d'agua

Place de la Bourse e a fonte Espelho d’água

Saint-Émilion, com suas ruas íngremes

Saint-Émilion, com suas ruas íngremes

Há outros aeroportos mais próximos de Terrasson Lavilledieu: Bergerac, Brive, Limoges. Todos têm boas ligações ferroviárias com a cidade.

Terrasson Lavilledieu fica a 179 km de Bordeaux. Para chegar até ela optei pelo trem (www.sncf.com/fr). Foram duas horas de viagem e um custo de 110 reais. Há também a opção de ônibus (www.ouibus.com  e  www.flixbus.com ) , mas depois da bike  eu amo viajar de trem.

Ponto de partida: Terrasson Lavilledieu

Não foi difícil chegar à pequena cidade. Da estação de trem segui caminhando para o B&B La Lauries Roses, localizado perto do histórico.

Uma antiga casa restaurada, muito charmosa. A proprietária estava a minha espera. Acomodei-me e fui explorar a pequena cidade. A tarde encontrei com o Mike, ele me passou todas as informações a respeito do trajeto, me levou mapas e me entregou a Bike. A bike me pareceu adequada, mas os alforges eram bem frágeis e não eram impermeáveis. O custo da Bike foi de 18 Euros por dia e o par de alforges 25 Euros.

A rota desenhada por Mike – Perigord Noir Cycle Tour, percorria na sua maioria estradas vicinais. Na França é proibido pedalar proibido pedalar nas auto-estradas (Autoroutes).

 Terrasson Lavilledieu 

A cidade está situada em ambos os lados do rio Vézère e é conhecida por seus telhados de ardósia azul que são incomuns na Dordogne.

Terrasson Lavilledieu 

A encantadora Terrasson Lavilledieu

Apesar de pequena, é incrível e charmosa. Agarrada ao penhasco de Malpas, a cidade antiga soube evoluir com o tempo, constituir-se, renovar sem esquecer o passado.

Um dos lugares incríveis para explorar em Terrasson é o Jardins de I’imaginaire

Jardins de I’imaginaire

Jardins de I’imaginaire

No dia 08 de maio comemora-se na França o Fête de La Victoire 1945 ou Festa da Vitória de 1945. Nesse dia, às 3h da tarde, todos os sinos das igrejas da França ressoam em uníssono para celebrar o fim da Segunda Guerra Mundial e a vitória dos aliados sobre a Alemanha nazista. Por acaso estava na praça nesse horário , e além de ouvir as badaladas do sino , ainda fui privilegiada ao poder ver de perto uma homenagem aos soldados.

O meu tempo na pequena cidade , foi muito agradável. Mas muito estava por vir, então descansei e no dia seguinte comecei a explorar a região de bike.

1 Dia :   Terrasson Lavilledieu – Montignac

Logo pela manhã deixei a cidade, seguindo uma rota pitoresca ao lado da antiga estrada de ferro, logo depois continuei por uma estradinha vicinal (D62). A expectativa do dia era conhecer a Gruta Lascaux. distante apenas 20km. E de lá seguir até Montignac destino final do dia.

Nesse trecho não encontraria nenhuma sinalização de ciclovia. Deveria de acordo com o mapa seguir pelas estradas secundarias – D62, D45 D704 – rotas rodoviárias oficialmente aprovadas  para ciclistas.

A Dordonha viveu sob o controle dos ingleses nos séculos 12 e 13 e por isso foi um dos palcos da famosa Guerra dos Cem Anos (1337 a 1453), que deixou uma porção de fortificações e castelos.Durante o percurso encontrei alguns deles.

Château de Sauveboeuf

Château de Sauveboeuf – construído no local de uma fortaleza do século XV, o castelo foi demolido em 1633. Foi reconstruída no século XVII.

Não demorou muito e depois de uma pedada tranquila; cheguei à Gruta de Lascaux. Eu sou apaixonada por história e estava ansiosa para conhecer o lugar.

Gruta de Lascaux

As pinturas da gruta de Lascaux fascinam o mundo desde sua descoberta, por quatro adolescentes, nos anos 1940.Henri Breuil, o primeiro cientista a analisar a gruta, a descreveu como a Capela Sistina da pré-história. Sem dúvida alguma, Lascaux representa as mais belas pinturas rupestres do mundo.

As pinturas sobreviveram 17.000 anos em um ambiente estável e quase estéril. Uma vez aberta ao público, elas ficaram expostas ao gás carbônico resultado da respiração humana e à deterioração. Em 1963 ela foi fechada definitivamente.

Em 1983 foi criado Lascaux II, ao lado da gruta original. De uma réplica de uma parte da gruta Lascaux construída em um bunker de cimento ao lado da verdadeira gruta. Uma maneira encontrada pelo estado francês de preservar os desenhos e mostrar ao mundo um dos mais bonitos patrimônios da humanidade.

Eu havia lido algumas críticas sobre a impossibilidade da reprodução da emoção causada pelos desenhos originais. No final do percurso, estava extremamente emocionada.

Dali segui para Montignac, distante apenas três quilômetros. Segui direto para o hotel Le P’tit Monde  – já havia feito reserva. Deixei minha bagagem e sai para explorar a pequena cidade.

Dia 2: Montignac – Les Eyzies – Sireuil 

Deixei Montignac, logo pela manhã. Segui em direção sul com destino a Les Eyzies, uma das aldeias mais populares da Dordogne e lar do Museu Nacional da Pré-História. Segui o rio Vezere até St Leon sur Vézère – uma “aldeia mais bonita” da França.

Alguns quilômetros depois de Montignac (5km) parei para visitar o Château de Losse e seus jardins, classificado como um “Monumento Histórico”.

A fortaleza medieval se eleva acima do rio Vézère. Dentro de suas paredes e fosso profundo, um salão renascentista foi construído em 1576. No portão de entrada (monumental), uma inscrição proclama, na linha do pensamento do século 16: “O homem faz o que pode, o destino que ela quiser”.

Château de Losse

Château de Losse 

Depois de explorar o castelo, segui em frente. Bem próximo dali vi uma indicação para o Thot Park, curiosa, segui as indicaçoes para descobrir o que era. Encontrei um parque que apresentava uma abordagem complementar ao que tinha visto no Lascaux. E oferecia uma visita não guiada, com duração de aproximadamente uma hora, centrada na relação entre o Homem e o Animal pré-históricos. Não tive dúvida fiz a visita.

Continuei pedalando até passar sob as incríveis moradas trogloditas de Roque St Christophe – um penhasco com 80 m de altura e 1 km de comprimento.

Aqui, o homem começou a ocupar o local tão cedo quanto os tempos pré-históricos, na base da imensa parede de calcário; nos tempos medievais, uma cidade forte e troglodita tomou forma aqui.

Fiz uma parada. deixei minha bike e fiz uma pequena trilha caminhando, na rocha. Foi surpreendente entender a configuração das habitações trogloditas. Cozinhas, locais de culto, engenhosas máquinas de engenharia civil que realmente funcionam.

Dali, continuei agora por uma subida firme , até chegar a uma descida que me levou até Les Eyzies.  

Pouco antes começou a chover e com a chuva o tempo escureceu.

Eu havia feito reserva em um Airbnb, perguntando aos locais o endereço, descobri que ficava longe da cidade, em uma zona rural. Um morador muito atencioso desenhou para mim um mapa, mas não foi suficiente. No caminho, mas uma vez pedi ajuda. Um rapaz simpático percebendo a minha dificuldade com a língua Francesa, pegou o telefone e ligou para a proprietária da pousada. ela, então veio me buscar. Foi só segui-la. Cheguei bem!

Dia 3: Sireuil – Sarlat

Logo pela manhã deixei a casa da Camile, que me recebeu na noite anterior. Havia conversado com ela e a sugestão dela foi que eu seguisse direto para Sarlat. E que fizesse da cidade base para explorar a região de bike (vários bate-volta). Assim eu poderia aproveitar o máximo do charme do pequena vilarejo medieval – Sarlat. Aceitei a sugestão. Me despedi e segui em frente.

Nesse trecho, vi pela primeira vez , na região o simbolo oficial de rotas da França ( ciclista branco no quadrado verde). Eu conhecia o simbolo de outras viagens feitas na França. Fiquei  tranquila  e passei a segui-lo.

Chegando em Sarlat

Sarlat é a capital do Périgord Noir. É também uma cidade histórica mundialmente conhecida pelos seus monumentos medievais. O centro da cidade é de uma rara homogeneidade arquitetural, composto de ruelas pitorescas com mansões medievais intactas.

Sarlat é com frequência a atriz principal de filmes, sobretudo daqueles que giram em torno da história da França. Desde 1945, a capital do Périgord apareceu em mais de 80 filmes entre eles Jeanne d’Arc de Luc Besson, Les Misérables de Robert Hossein, Les Duellistes de Rodley Scott, La Fille de d’Artagnan de Bertrand Tavernier.

Foi  maravilhoso ficar explorando seus becos, ruelas,mercados e arcos.

Explorando a região de Sarlat

 Dia 4 – La Roque Galeac 

A vila de La Roque-Gageac é tão antiga quanto misteriosa. Esta magnífica vila construída no sopé do penhasco, que está perto de cair no rio, tem sido ocupada por seres humanos desde os tempos pré-históricos. Há restos de uma estrada antiga e o local de uma vila, da época galo-romana, além de um poço romano em excelente estado. A ocupação conhecida do local é, no entanto, menos distante. Data de cerca de 849, com a chegada dos normandos em Périgord.

Na Vila fiz um interessante passeio de barco ao longo do Dordogne, utilizando réplicas dos antigos barcos [gabares] que faziam o transporte de mercadorias entre as aldeias e cidades ribeirinhas. O passeio durou  cerca de uma hora,entre ida e volta, o que permitiu   apreciar bem a “village” de La Roque-Gageac , vista do rio .  O barco saiu do ancoradouro junto ao “centro” . um passeio que valeu a pena!

Dia 5 – O castelo e os Les Jardins de Marqueyssac

Ainda perto  de Sarlat, visitei um dos mais incríveis e diferentes jardins franceses: os Jardins de Marqueyssac!

Os jardins ficam a  130 metros de altura do Vale do Rio Dordogne, no topo de uma colina e cercados por falésias calcárias.Considerado um dos mais belos jardins franceses possui uma área de 22 hectares, com seis km de trilhas e percursos de caminhada e 150.000 buxinhos centenários, cuidadosamente esculpidos à mão, por apenas cinco jardineiros que fazem a manutenção dos jardins. Ali eles trabalham com réguas e tudo é milimetricamente marcado.

Além dos jardins, há uma espécie de floresta. Os caminhos em meio ao verde passam por diversas espécies de vegetação e árvores, com espaço para piqueniques e permitindo lindas vistas do vale.

 o Belvédére de la Dordogne

Do ponto mais alto a 192 m de altura– o Belvédére de la Dordogne –  a vista do vale e da Vila La Roque-Gageac é de tirar o fôlego 

Dia 6 – Sarlat para Souillac.

Depois de dias incríveis em Sarlat, chegou a hora de seguir pedalando agora em direção a cidade de Souillac ao longo da Voie Verte (Via Verde) – uma linha ferroviária que foi transformada em uma ciclovia adorável e plana que se estende por 29 km da capital medieval da região, Sarlat-la-Canéda, e corre paralela ao rio em direção a Cazoulès. 

Ao termino da Voie Verte, continuei ao longo do vale pelo rodovia D703 até chegar a Peyrillac,depois segui por  uma estrada rural tranquila  até  o destino final do dia Souillac.

Abadia de Sainte-Marie

Abadia de Sainte-Marie

A pequena cidade de Souillac é famosa por sua igreja da abadia de Sainte-Marie em estilo românico-bizantino. Este edifício do século XII tem um magnífico portal esculpido. O campanário com vista para a pitoresca cidade velha é um remanescente da antiga igreja de St. Martin.

De Souillac a Rocadamour

Eu cheguei a Rocamadour pelo alto, pelo castelo de Rocamadour. Ele não abre suas portas ao público, mas as muralhas podem ser visitadas. Elas são lindas.

A partir do estacionamento do castelo desci a pé, pelo jardim da Via Sacra. O caminho é maravilhoso e sem esforço algum cheguei rapidamente ao santuário.

O Santuário formado pelas suas capelas : capela Saint Anne, Saint Blaise, Saint Jean Baptiste, Notre Dame de la Vierge Noire, Saint Michel e a capela Ovalie é dedicado, desde a idade média, á Notre Dame . Está agarrado nas pedras da falésia em uma superposição de casas, capelas e a basílica de Saint Sauveur  – é incrível!

Visitei todas as capelas e com calma perambulei pelo santuário para descobrir os murais, as esculturas e de tempos em tempos a vista da região.

O vilarejo é um importante centro de peregrinação, atraindo cristãos de várias partes do mundo. Essa fama data desde a Idade Média, precisamente do século XII, quando começaram a ser reportados vários milagres atribuídos a São Amador e à imagem da Virgem Negra.

Ao longo dos séculos, Rocamadour recebeu a visita inclusive de peregrinos famosos, como reis e imperadores. O local faz parte da rota francesa do Caminho de Santiago de Compostela.

A cidade é famosa por ser um ponto de peregrinação religiosa.

Em seguida, desci as escadarias para chegar a pequena cidade de Rocamadour – basicamente uma única rua, onde estão lojas, restaurantes e mansões – tudo em um charmoso clima medieval, com construções em pedra e madeira. Percorri a rua com calma, usufruindo de tudo que o lugar tinha para me oferecer. 

Dali voltei a Souillac, onde havia marcada  com o Mike  para devolver a bike. Agradeci pelas dicas e me despedi. Realmente o percurso foi incrível!!!!!!