Estrada Real de bike , um caminho, nosso destino…

Tudo começou quando conheci o blog – claudiajakefilipe.blogspot.com.br da Claudia Jak. Gostei tanto que passei a seguia-la no Facebook, onde descobri que ela faria a Estrada Real de bike. (dezembro 2014)
A história continua quando de forma repentina e sem muito pensar, perguntei se havia alguma possibilidade de nos candidatarmos ( eu e meu marido) a aventura de percorrer com ela o “Caminho dos Diamantes” da Estrada Real.
A resposta da Jack foi: BORA LÁ !!!
Resposta surpreendente, pois ambos éramos absolutamente desconhecidos da Claudia Jack.

E Foi assim que fomos pedalar na Estrada Real. Com um grupo maravilhoso que simplesmente nos aceitaram sem perguntas. Uma viagem fantástica!!!!!

Estrada Real

Em meados do século XVIII já eram muitos os caminhos que conduziam às minas de Minas Gerais, mas também muitos eram os seus descaminhos. Para evitar estes descaminhos a Coroa Portuguesa determinou que o ouro e os diamantes deixassem as terras mineiras apenas por trilhas outorgadas pela realeza, que receberam o nome de Estrada Real.

Inicialmente, o caminho ligava somente a cidade de Paraty às províncias auríferas do interior de Minas, a antiga Villa Rica, hoje Ouro Preto (Caminho Velho). No entanto, a Coroa Portuguesa percebeu a necessidade de um trajeto mais seguro e rápido ao porto do Rio de Janeiro, surgindo então o caminho novo. Ainda no século XVIII, surgiu outra trilha para exploração dos diamantes – o belo Caminho dos Diamantes.

Todo o percurso planilhado com detalhes de altimetria é possível encontrar neste link  http://www.institutoestradareal.com.br/caminhos/diamantes/

Foi esse caminho que decidimos fazer – seriam 8 dias pedalando, quase 400 km em estradas rurais e trilhas, com os mais diversos pisos de pedras grandes, pedras pequenas, areia, subidas e descidas e combinações de diferentes tipos. E o melhor – contato com a natureza ao extremo e com a cultura local.

Estávamos prontos, animados e abertos para tudo o que estava por vir.

Nosso ponto de partida foi Ouro Preto

Ouro Preto

Ficamos na Pousada Vila Rica (antigo Ginásio Municipal e única construção civil com azulejos portugueses da cidade) e nossos amigos na Pousada Sorriso do Lagarto. Por coincidência o Caio (dono da pousada) é um ciclista apaixonado pelas estradas de Minas ficou muito entusiasmando quando soube da nossa façanha, mas também muito preocupado com as condições da bike do Zé Marques. A suspensão estava totalmente travada. Então como todo bom ciclista nos ajudou a resolver o problema.

Foi na Praça Tiradentes (local onde a cabeça do mártir da independência, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi exposta em 1792), que encontramos pela primeira vez nossos novos amigos: Claudia Jak e Filipe, Claudia e Carlão e a Maria, pessoas que seriam fundamentais para o sucesso da nossa jornada. Foi mágico!!!!  Empatia…foi simples assim. De repente parecia que éramos velhos conhecidos.

Seguimos para o Centro de Atendimento ao Turista, para pegar as credenciais. Muito legal a campanha proposta pelo centro de Turismo – 1 Kg de alimento não perecível, para a retirada dos passaportes. Tudo certo, passaportes em mãos, foto para registrar o primeiro carimbo do caminho.

Em uma viagem de bicicleta o caminho é muito mais importante que o destino final. Em minha opinião o percurso tem que ser feito lentamente, permitindo que os lugares visitados sejam explorados e interações sejam feitas. E foi o que fizemos exploramos Ouro Preto, antes de seguir pedalando.

Ouro Preto, um Museu a céu aberto

Andar pelas ruas de Ouro Preto é como andar em um museu a céu aberto, nos sentimos transportados a uma outra época. É passear pela história.

As igrejas de Ouro Preto fazem parte do cenário arquitetônico e religioso  da cidade. Em cada rua, cada esquina, cada cume de morro, fomos surpreendidos por uma igreja que guarda em suas paredes e altares, um pouco da história da cidade.

Igreja São Francisco de Assis

Igreja São Francisco de Assis

Construída entre 1766 a 1810, projeto de Manuel Francisco Lisboa. Essa igreja é considerada a obra-prima do período rococó no Brasil. A arquitetura, esculturas, talha e ornamentação são obras de Aleijadinho e a pintura e douramentos são de Manuel da Costa Ataíde. Belíssima!!!!!!

Igreja Matriz Basílica de Nossa Senhora do Pilar

Igreja Matriz Basílica de Nossa Senhora do Pilar Foto: Carlos Alberto/Imprensa MG

Fiquei impressionada com a abundância de detalhes e de ouro do interior da Igreja Matriz Basílica de Nossa Senhora do Pilar, que é a mais rica em quantidade de ouro de Minas Gerais e segunda mais rica do Brasil. A Matriz do Pilar têm aproximadamente 400 quilos de ouro e 400 de prata. Essa é uma das igrejas de Ouro Preto mais antigas, a primeira Matriz do Pilar foi erguida entre 1700 e 1703, depois foi demolida e construída a atual, isso por volta de 1728. (fotografia no interior é proibida)

A Feirinha de Pedra Sabão-Largo do Coimbra

Ainda tivemos tempo para explorar a Feirinha de Pedra Sabão de funciona no mesmo local a 40 anos.

Ouro Preto enche os olhos e lava a alma com essa sensação boa, só nos restou descansar para encarar no dia seguinte a nossa pedalada com destino a Diamantina.

 Na manhã seguinte começamos oficialmente nossa pedalada pela Estrada Real…

1ª Etapa: Ouro Preto a Camargo Total – 28km

Ouro Preto – Mariana – Camargos

Saímos de Ouro Preto e durante alguns quilômetros pedalamos em paralelepípedo. Ruas estreitas e alguns carros passavam por ali. Na sequência, a estrada ficou um pouco mais larga e no final de uma subida, não muito íngreme, chegamos a um mirante da cidade.

Á partir daqui, seguimos por estrada em asfalto nos levaria até nosso próximo destino. Longas descidas, paisagens e muito verde, uma pedalada muito tranquila, até chegarmos a Mina da Passagem (www.minasdapassagem.com.br), a maior mina de ouro desativada, aberta a visitação.

Para chegar a Mina, só mesmo fazendo como os trabalhadores faziam no passado: Foi preciso embarcar em um carrinho de mais de 200 anos e percorrer os mais de 300 metros até o local de desembarque

A 120 metros de profundidade, o equivalente a um edifício de quarenta andares, encontramos um labirinto de imensas galerias suspensas por colunas de pedras. A aventura no interior da mina é curta (dura cerca de meia hora), mas cheia de curiosidades narradas pelos guias. Eles explicam o processo de extração, transporte e beneficiamento do ouro. Também lembram “causos” passados de geração a geração. Segundo a guia muitas pessoas perderam a vida na mina. Um dos acidentes mais famosos aconteceu em 14 de dezembro de 1936, quando dezessete trabalhadores morreram após uma inundação.

Na saída, a guia nos mostrou como é feita uma garimpagem. É necessário passar horas para se conseguir algumas gramas do metal precioso.

Depois da visita seguimos pedalando ate a próxima parada Mariana.

Uma parada em Mariana

Chegamos à cidade e seguimos para carimbar nosso passaporte, na Casa do Turista.

Fundada há mais de 300 anos, Mariana foi eleita a primeira capital de Minas no século 17.

Sua principal atração a Catedral da Sé.

Apesar da fachada modesta, é uma das igrejas mais ricas do Brasil, com lustres de cristal da Boêmia e onze altares ricamente ornados – dois são de Francisco Xavier de Brito, mestre de Aleijadinho. A Igreja também possui o Órgão Arp Shnitger, instalado em 1753. Sua fabricação em 1701 foi provavelmente feita pela família alemã Shnitger, que fabricava órgãos no século XVII. É o mais importante instrumento fora da Europa.

De Mariana seguimos em direção a Camargos.

foto : Claudia Jack

As subidas começam a surgir e as paisagens lindas também. Era difícil resistir a cada marco que surgia em nosso caminho.

Chegamos a Camargos, 

Um pequeno vilarejo, fundado em 1711, com a descoberta de um ribeirão aurífero. Devido a sua localização, no alto de um morro, possui uma vista de encher os olhos.

Ficamos hospedados na Pousada da Dona Cota e do Sr. Dario. De forma muito carinhosa, eles nos aguardavam com um café da tarde e um bolo, sobre a mesa.

foto :Claudia Jack

Na manhã seguinte nos despedimos de Cota e Dario

2º Etapa : Camargos a Santa Bárbara – Total – 58 km

Camargos – Santa Rita Durão – Catas Altas – Santa Bárbara.

Seguimos para o centro deste pequeno distrito, com apenas 40 casas, onde há um Cruzeiro talhado em Pedra Sabão, único, um dos símbolos da Estrada Real e uma antiga igreja, datada da metade do século XVIII, com torres baixas, frontão triangular simples e uma escadaria que dá acesso a sua entrada. Atualmente está fechada para restauração. Paramos em frente para registrar nossa passagem. E seguimos pedalando!!!

Foto : Claudia Jack

Uma parada em Bento Rodrigues 

Um pequeno distrito, pertencente à comarca da cidade de Mariana. No passado, este povoado foi um importante centro de mineração. Paramos para nos reabastecer no bar ao lado da Igreja do Rosário que infelizmente estava fechada.

Seguimos viagem, subindo, subindo… e novas paisagens foram surgindo…

De repente, ao fundo, passamos a ver a belíssima e impressionante Serra do Caraça. Uma vista de tirar o fôlego!!!!!

Próxima parada Santa Rita Durão

Chegamos ao distrito, com o sol a pique. Por isso, decidimos fazer uma parada com tempo maior em frente à Igreja Ns. Senhora de Nazaré (Nossa Senhora do Rosário dos Pretos). 

O distrito tem um “filho ilustre”, Frei José de Santa Rita Durão, nascido em 1720 e falecido em 1784, em Lisboa. Precursor da Literatura Brasileira foi autor de um dos maiores poemas épico brasileiro: ‘Caramuru’. Postumamente, foi homenageado tendo sido Patrono da cadeira nº 9 da Academia Brasileira de Letras.

Daqui, seguimos rumo a Catas Altas. A cada nova curva, uma bela paisagem se formava a nossa frente! A dificuldade era não parar a cada metro para fotografar tudo o que víamos, pois quanto mais próximos estávamos da Serra, mas linda ficava a paisagem!

Após um pequeno trecho de asfalto, chegamos a Catas Altas, cidade fundada em 1702.

A visão que se tem da cadeia de montanhas, do lado oposto à igreja, é impressionantemente linda!

A Igreja Matriz Ns. Senhora da Conceição, localizada na praça central, é um dos mais importantes templos mineiros. Ela guardar documentos de celebração do primeiro batismo na capela, datado de 1712.

De catas Altas seguimos pedalando na companhia da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço e de suas paisagens exuberantes.

Bicame de Pedra

Nesse trecho paramos para apreciar o Bicame de Pedra, um aqueduto construído pelos escravos em 1792, de 4 metros de altura, onde suas pedras foram postas sob pressão, sem qualquer tipo de concreto, sobre o qual corria água para abastecer as antigas fazendas da região. 

Seguimos por uma estrada de terra, sem grandes subidas, mas eu e o Zé Marques já estávamos bem cansados. Faltando uns 13 km para chegarmos a Santa Bárbara nosso destino final dessa etapa, nos deparamos com uma bifurcação e uma decisão difícil para ser tomada em grupo tinha duas opções: seguir em frente e sair na rodovia estadual que chegava a cidade por asfalto – mais rápido ou seguir pela estrada de terra de difícil acesso. Já começava a escurecer então Carlão comentou que achava prudente que seguíssemos pela rodovia, apoiado por Claudinha. Nós (eu e o Zé Marques não opinamos – estávamos de carona no grupo). A Claudia Jack me pareceu contrariada.

A chegada a Santa Bárbara foi tranquila. O trecho em rodovia foi de apenas 10 km. Após uma pequena subidinha em paralelepípedo, chegamos a matriz e no hotel Hotel Quadrado onde nos hospedamos.

Acomodamos-nos e saímos a procura de um lugar para jantar, só tinha um pequeno detalhe: era véspera de natal. Esta tarefa não foi tão simples assim…

Encontramos apenas uma pastelaria aberta e foi nela que fizemos nossa “ ceia de Natal” com pastéis e cerveja e muitas risadas.

3º Etapa :  Santa Bárbara a São Jesus do Amparo –   52 Km

 Santa Bárbara – Barão de Cocais – Cocais –  Bom Jesus de Amparo 

No trecho de Santa Bárbara até Barão de Cocais encontramos uma estrada em boas condições. Pedalamos por um caminho onde a mata era predominantemente fechada, possibilitando bastante sombra. O trecho termina na cidade de Barão de Cocais – fundada no século XVIII, mantendo como ponto de atratividade suas belas cachoeiras, além das ruínas do Congo Soco, uma antiga mina adquirida pelos ingleses no século XIX e que acabou se transformando em uma vila britânica, possuído hospital, capela e cemitério particular. 

Entre Barão de Cocais e Cocais encontramos muitos “mata burros” foi necessário muita atenção – Sempre tinha alguém gritando “Olha o mata burro “ . Também vários cruzamentos, muitas vezes os Totes não existiam – Por muitas vezes o Carlão (o mais rápido com a Bike pedalava um trecho enquanto esperávamos ele confirmar o percurso ou salvação foram as planilhas que a Jak carregava com ela.  

Entretanto, é um trecho de rara beleza.

No caminho passamos pelo Sítio Arqueológico da Pedra Pintada onde estão pinturas rupestres de 6.000 anos – mas infelizmente não foi possível visitá-lo devido ao feriado de Natal.   Chegamos ao vilarejo de Cocais – fundado em meados do século XVIII a partir da vinda de bandeirantes na busca pelo ouro, conservando, nos dias de hoje, traços da época de esplendor deste metal, como seus casarões e igrejas, sendo uma delas construída totalmente em pedras, datada de 1769. 

Foto : Claudia Jack

Passamos por uma grande floresta de eucaliptos. Mas infelizmente, estávamos na época do corte. Em pleno sol do meio dia, não havia onde se esconder do sol, o que dificultava muito a pedalada…

Eu e o Zé Marques empurramos a bike por alguns quilômetros. Realmente o sol castigava. Decidimos fazer uma pausa, assim que conseguimos uma sombra e aproveitamos para repor nossas energias.

Gastamos quase duas horas para percorrer 6 km. Não foi fácil, mas como, tudo que sobe uma hora tem que descer. Descemos, mas com cautela, havia muitas e tudo que queríamos era chegar sem nenhum arranhão.
Após uma longa descida, entramos numa floresta de eucaliptos, onde a temperatura ficou mais amena e suportável.
Seguimos em frente, atravessamos a BR-381 e seguimos por uma estrada de terra… Novamente sobe, sobe, sobe… 

Bom Jesus do Amparo

Depois, seguimos por uma estrada em asfalto bem tranquila, com pouquíssimo movimento. Pegamos uma boa descida até Bom Jesus do Amparo. No caminho, ainda assistimos ao pôr do sol…

Chegando na cidade encontramos Fernando Gonçalves, um guia turístico da cidade que acompanha a Claudia Jak no facebook – uma pessoa fantástica e apaixonado pela Estrada Real. Como sabia que chegaríamos hoje nos aguardava. Ele nos acompanhou ate à pousada onde ficaríamos (Pousada Real), onde fomos recebidos pelo proprietário Joãozinho.

O nome Bom Jesus do Amparo é uma homenagem à imagem do Senhor do Bom Jesus, adquirida em Amparo, cidade de Portugal, por seu primeiro morador, coronel João da Motta Ribeiro, no século 18. A imagem do menino Jesus com seus 12 anos, considerada uma raridade, encontra-se na Igreja Bom Jesus do Amparo, localizada no centro da cidade.

4º Etapa:Bom Jesus do Amparo a Itambé do Mato Dentro – 45 Km

São Jesus do Amparo – Ipoema – Itambé do Mato Dentro

Saímos de São Jesus do Amparo e partimos em direção a Ipoema. O trecho em asfalto é bem tranquilo, com umas paisagens lindíssimas! 

Ipoema

Em Ipoema decidimos parar na Pousada Real de Ipoema para pegar o carimbo. Aqui, pudemos conhecer o Sr. Joineijober, um fotógrafo e jornalista que também faz trabalhos como diagramador em uma revista, sobre a Estrada Real. A pousada é lindíssima e muito bem cuidada… pena que não poderemos ficar.

Seguimos para o centro da cidade e logo avistamos o museu dos tropeiros, próximo a igreja N. Sra. Conceição, 1915.

Igreja N. Sra. Conceição, 1915

Museu Tropeiro 

Uma das atrações de Ipoema é o Museu Tropeiro – com com um acervo que narra a importância histórica e cultural do tropeirismo, que durante séculos ligou arraiais levando alimentos e bens de primeira necessidade. Suas tradições renderam hábitos enraizados até hoje na gastronomia mineira, como o delicioso feijão tropeiro.

A casa que abriga o museu é do século XVIII e pertenceu a um tropeiro conhecido como Sô Neco. O imóvel também já foi rancho de tropeiros e casa paroquial.

Quando chegamos estava fechado, mas a Claudia Jak percebeu que havia certa movimentação lá dentro. Bateu na janela e apareceu uma senhora vestida de segurança, muito simpática. Jak contou a ela que estávamos de passagem e que em Sorocaba (cidade da Jak) é muito forte a história do tropeirismo. Foi mais que o suficiente para nos deixar entrar, fotografar e ainda nos servir uma  água gelada

Deixamos Ipoema, mas antes calibramos os pneus e saímos em direção de Nossa Senhora do Carmo.

Este primeiro trecho foi espetacular!

Com montanhas e paisagens magníficas ,mas nada fácil de  pedalar.

 

O sol estava muito forte e nós já começávamos apresentar sinais de desgaste físico e apesar do trecho não ter tantas subidas, começamos a empurrar a bike.

O sol estava nos castigando… e para ajudar de Nossa Senhora do Carmo até Itambé, seguimos em asfalto.

Nesse trecho de asfalto o sol foi inimigo… era escaldante e o calor insuportável. Quando olhei para o asfalto que literalmente derretia, pensei: isso é insano!!!! Impossível continuar, a temperatura passava dos 40ª graus. Nossos amigos seguiam em frente e eu dizia “preciso de sombra, preciso de sombra olha esse asfalto está derretendo” É insano. Estávamos em uma estrada de asfalto e claro, todas as arvores que ali existiam tinham sido arrancadas em beneficio do progresso.

E lá íamos nós…sol, sol, asfalto derretendo até que avistei uma minúscula sombra e me joguei embaixo dela. Nossos amigos pensaram que eu estava passando mal e correram em meu auxilio. Na verdade, só precisava acreditar que o sol não iria me vencer… então segui em frente.

Pegamos uma longa subida nos últimos quilômetros deste dia… e para piorar, não tínhamos nos alimentado muito bem… todos estavam cansados.

Depois de um dia muito difícil e com um calor insuportável, fomos recompensados com uma agradável surpresa. Uma cachoeira no fundo da pousada onde ficaríamos hospedados – Pousada Portal do Itambé.

Bom… ai foi só relaxar !!!!!!!

5 dia – Itambé do Mato Dentro a conceição do Mato Dentro- 45 Km

Itambé do Mato Dentro – Morro do Pilar -Conceição do Mato Dentro – Conceição do Mato Dentro

O dia anterior foi um dia muito cansativo, o sol foi nosso inimigo.

Por algum momento pensamos em tirar o dia para descansar, visitar algumas cachoeiras e tentar encontrar com o grupo no final do dia em Conceição do Mato Dentro, de ônibus ou de outra forma…  Mas acordamos super animados e com tudo pronto, partimos em busca das próximas aventuras, mas decididos pedalar apenas no período da manhã. A Claudinha topou a ideia. 

A cada metro que subíamos, as paisagens ficavam cada vez mais lindas… era inevitável parar, a fim de registrar.

 

A subida estava difícil … foi justamente nesta hora, que o primeiro “salvador” do dia surgiu em seu belíssimo cavalo branco, ou quase isso… Ele nos ofereceu uma pequena carona, que foi muito bem vinda!

A carona foi curtinha, por uns 5 km no máximo, mas pelo menos ele nos deixou em um ponto mais plano.

Esperamos pelos nossos amigos e seguimos todos juntos novamente, pedalando, pedalando…

Neste trecho, encontramos duas pedras de beleza singular.  Lindíssimas!!!! Por isso, aproveitamos para fazer muitos click’s por aqui… 

Á partir daqui, pegamos uma longa descida, com algumas pedras, buracos e cascalho.

Mas, como tudo o que desce um dia sobe, as subidas voltaram a aparecer, sem piedade.

Após alguns quilômetros, surgiu naquela estrada deserta uma bela Hilux. Não acenamos, pois tínhamos decido pedalar até as 13hs. Mas ao passar pela Claudinha a caminhonete parou. O casal perguntou se queríamos carona até Morro de Pilar (quem realmente se sensibilizou com nossa situação foi a esposa, Adélia). Claudinha aceitou e nos chamou… decidimos acompanhá-la.

Aproveitamos para levar os alforges dos nossos companheiros que seguiriam pedalando. Como havíamos analisados criteriosamente a planilha do dia vimos que trecho de Morro do Pilar a Conceição do Mato Dentro seria de subidas muito íngreme, então também decidimos que esse trecho faríamos de carona. E mais uma vez a Claudinha topou a ideia.

Em Morro do Pilar encontramos Sr. Jésus, um mineirinho típico, de poucas palavras, que se propôs a nos levar para Conceição. Ele tratou nossas bikes com o maior carinho, acomodando-as com maestria.

Seguimos viagem tranquilamente. De repente, nosso bondoso motorista fala baixinho que se gostaríamos de parar para uma bela foto, num lugar muito bonito. Rapidamente aceitamos e realmente, o lugar é de tirar fôlego!

O trajeto de 27 km foi percorrido lentamente, pois as condições da estrada não eram favoráveis. Demoramos uma hora e trinta minutos de viagem.

Enquanto fazíamos o trajeto de carona, nossos amigos seguiram pedalando. Enfim, depois de mais um dia difícil chegamos todos a Conceição de Mato Dentro.

Ficamos hospedados na Pousada do Lago.

 6º dia – Conceição do Mato Dentro a Alvorada de Minas – 48 KM

Conceição do Mato Dentro – Córregos  -Tapera – Alvorada de Minas

Seguimos por um caminho lindo, com muitas retas, descidas e alguns animais enfeitando as paisagens…

Córregos

Chegamos rapidamente ao distrito de Córregos, pertencente a cidade de Conceição.

Na parte central do distrito, localiza-se a pequena igreja de Ns. Sra. Aparecida, de 1745.

A sua volta, existem vários casarios coloniais, muito bem conservados e bonitos!

Aqui, fizemos uma breve parada para nos reabastecer e logo seguimos.

Na sequência, o sol, aliado as subidas, passaram a ser novamente os vilões do dia. Começou a ficar bem difícil, para todos. Foi bem nesta hora que uma ajuda providencial, de um “anjo” bem diferente, entrou em nosso caminho. Hailander é uma figura em pessoa... ele mora em Tapera . Quando passou por nós, mexeu com todo mundo! Ele gritava: “Vamos pessoal, bora, pedalem, pedalem, falta só mais um pouquinho”Durante alguns mata-burros, que não eram possíveis passarmos pedalando, ele parava seu carro, abria a porteira ao lado e aguardava até que todos tivéssemos passado.

Hailander é uma figura em pessoa.

Tapera

Chegamos ao distrito de Tapera, um local pequeno e pacato, citado em 1.817 pelo naturalista francês, Saint Hilaire, como sendo um local de natureza bem preservada e belas paisagens… parece mesmo que o tempo parou, pois sua descrição, ainda é atual.

De Tapera a Alvorada de Minas já tínhamos decidido ir de carona, por dois motivos: o sol da tarde que castigava e as subidas muito fortes nesse trecho. Nossos amigos pegaram uma carona pequena com o Hailander.  Ele comentou que estava indo para sua chácara, que ficava após a temível subida de 4 km, com ascensão de 400m. Então eles aproveitaram, com exceção do Carlão, que seguiu determinado a enfrentar a “tal” subida.

Todos juntos novamente em Alvorada de Minas. Aqui ficamos hospedados no Recanto das Corujas.

Marlene e Valtinho tem uma pousada perfeita, do jeitinho que todo cicloviajante quer: Simples e Aconchegante! Ao entrarmos na cozinha, vimos aquele fogão à lenha forrado de opções… famintos como estávamos, comemos até “cair para o lado”!

7 dia -Alvorada de Minas  a São Gonçalo do Rio das Pedras- 48 KM

Alvorada de Minas  – Serro – São Gonçalo do Rio das Pedras

Acordarmos com o nascer do sol – uma vista de encher os olhos e lavar a alma!

Tiramos a foto oficial da partida e saímos bem cedo. Pegamos um trecho de asfalto tranquilo. Nossa primeira parada foi em Serro.

Perto das outras cidades da região, Serro parece uma metrópole, com um centrinho bastante movimentado. Na Praça João Pinheiro começa a escadaria de 58 largos degraus que leva até a Capela de Santa Rita.

Foto: Claudia Jack

A fama da cidade veio do seu queijo homônimo, fabricado há mais de 200 anos – muitos atribuem seu sabor distinto ao clima.

Deixamos Serro e seguimos pedalando. Nossa próxima parada, será no distrito de Milho Verde. Olha as placas de Diamantina começando a aparecer!O trecho a seguir era todo em asfalto.

A cada quilômetro percorrido, o sol esquentava mais e a subida ficava íngreme. Estávamos próximos, poucos quilômetros, mas não chegava nunca, foi quando outro “salvador” apareceu. Seguimos de carona até Milho Verde e esperamos pelos nossos amigos.

Milho Verde sediou no século 18 um registro, espécie de alfândega onde se controlava o trânsito de pessoas – e de pedras – que passavam pela Estrada Real. Hoje bem mais pacato, o vilarejo no alto de uma linda colina chama atenção pela pitoresca capela de Nossa Senhora do Rosário,que parece  plantada num amplo descampado.É maravilhosa!!!!!!

Permanecemos um tempo, no belo distrito de Milho Verde, e seguimos viagem.

Os moradores em Milho Verde nos alertaram sobre uma longa e íngreme subida até S. Gonçalo,mais uma. Sem medo de ser feliz, seguimos todos juntos para enfrentá-la.

De Milho verde seguimos todos juntos para São Gonçalo, com exceção do Carlão. Ele havia ficado para trás, em Serro, para ir ao banco sacar din din. Como ele pedala muito mais do que nós, seguimos sem ele na esperança que nos alcançasse.

Foto: Claudia Jack

Foto Claudia Jack

Em São Gonçalo  para variar, a pousada ficava na parte mais alta da cidade.

Ao término da subida, vimos uma placa do Refúgio 5 Amigos e paramos para uma foto.

Ao chegarmos à pousada, uma desagradável surpresa: Carlão não havia chegado. Meu Deus, uma pessoa que pedala tão bem quanto ele, não nos alcançou e ainda não chegou! O que teria acontecido?? Após umas 2 horas que já havíamos chegado, Claudinha pede para a D. Ana Maria, proprietária do refúgio, ligar para a polícia. Mas logo aparece o Carlão!!!! Ele estava super cansado! Disse que um pouco antes de chegar a Milho Verde, desviou caminho para ver uma cachoeira e ali permaneceu um bom tempo. Provavelmente teríamos passado por ele nesta hora. Foi um desencontro.

O jantar, preparado com muito carinho por Ana Maria, estava delicioso: típica comida mineira, sobre um fogão a lenha com muitas opções. Depois do jantar, seguimos para nossos quartos a fim de descansarmos.

8º dia São Gonçalo do Rio das Pedras  a Diamantina – 32 KM

Assim que saímos de S. Gonçalo, pegamos uma descida de uns 3 km. No meio desta longa e inclinada descida, vemos a bela ponte, lá de cima, que está localizada bem próxima ao distrito de Vau. Esta ponte, datada do século XVIII, corta o rio Jequitinhonha e chama muito nossa atenção, tanto por sua conservação como por sua beleza.

Chegamos ao povoado de Vau e o único bar do vilarejo, estava fechado, mas o proprietário, ao ouvir nossa voz, rapidamente o abriu! O nome do bar – Último Gole – último lugar para nos abastecer antes de Diamantina.

 O interessante é que o nome do bar varia… caso esteja indo para Ouro Preto o nome do bar passa a ser: Primeiro Gole.

Seguimos pedalando, alguns trechos ainda difíceis, mas de beleza imensurável. Estávamos próximos da meta final.

Seguimos pedalando e chegamos a Ribeirão do Inferno, com uma bela ponte e um rio onde muitos banhavam-se.

Segundo moradores leva o nome de Ribeirão do Inferno, devido a uma mina ter desmoronado sobre 150 escravos, que trabalhavam na mineração de diamantes.

Seguimos por mais alguns quilômetros e chegamos a Diamantina!!!!

Foram os últimos quilômetros mais difíceis, tanto pela temperatura como pelas longas subidas. Para ajudar, as subidas eram feita em calçamento de pedra.

Mas chegamos! Chegamos ao centro histórico, chegamos na parte bela da cidade … Atingimos a meta!!!!!!


Dos 395 km da Estrada Real (Diamantina a Ouro Preto) eu e o Zé Marques pedalamos 315 km. Algumas vezes pegamos carona. A minha maior preocupação era não atrasar o grupo,e também acredito fortemente que devemos respeitar o limite do nosso corpo, para que possamos usufruir da viagem toda.Essa era a nossa primeira cicloviagem. Estávamos felizes e gratos por um grupo fantástico terem nos aceito para uma aventura memorável.

Foi uma pedalada difícil e cheia de obstáculos.

Mas, seguramente, nos divertimos muito e demos boas risadas.

A parte mais agradável talvez tenha sido os bons cafés da manhã que tomamos todos juntos, nos preparando para a jornada e  os jantares, com lembranças dos fatos do dia e novas e boas gargalhadas, lembrando os personagens e as figuras que encontramos em nossa jornada.

Encontramos lugares e pessoas maravilhosas.

Uma coisa que nos chamou atenção foi o carinho e o respeito que o grupo teve com todas as pessoas que tivemos contato.

Tínhamos um objetivo e o alcançamos.

Cada um de nós a sua maneira.

Chegamos à praça central de Diamantina, cansados, sujos, mas com um sorriso nos lábios e  com a sensação do dever cumprido.

A cerveja “Original” geladérrima desceu muito bem!

Jak, Filipe, Claudinha, Carlão e Maria – vocês são pessoas especiais. Muito Obrigado!!!!

Obrigada Claudia Jack por ter cedido algumas das fotos aqui publicadas.