Patagônia  de bike : Um espetáculo que aquece a alma do cicloviajante.

Ah!!!!! Patagônia! Nunca imaginei que nos auge dos meus 61 anos fosse percorrer de bike uma parte desse território de 1.043.000 km² divididos entre a Argentina e o Chile. Seus limites mais ao norte começam, no Chile na região de Puerto Montt, e na Argentina na mesma latitude, na região de Bariloche (Nos Andes) até a Península Valdés , no Atlântico. Com tamanha extensão, ela pode ser dividida em três grandes áreas: Patagônia Atlântica, Andina e Austral.

A Patagônia que explorei de bike, as vezes ônibus e carona  em 28 dias de viagem:

 Patagônia Argentina (Prov. Santa Cruz), Região XII de Magalhães e Antártica Chilena (Chile) e Terra del Fogo (Chile/Argentina).

Como surgiu a ideia de fazer essa rota…

Foi um convite de uma ciclista – Cristiane, que encontrei por acaso em 2015 percorrendo o Vale Europeu (Santa Catarina). Na época eu havia publicado um post sobre minha viagem solo pelo Caminho Francês de Santiago de Compostela. Quando nos encontramos ela compartilhou comigo o seu desejo de também percorrer o Caminho. Conversamos muito a respeito e segunda ela meu post e nossa conversa foram determinantes na sua decisão em também explorar o Caminho de Santiago de Compostela no ano seguinte.

E foi percorrendo o caminho que ela conheceu um ciclista italiano, se apaixonaram e se casaram, hoje ela mora na Itália. E então, três anos depois ela me liga me convidando para fazer a Patagônia de bike com eles e mais um amigo. Eu como não perco uma oportunidade, fui logo aceitando o convite.

E aceita-lo significava pedalar distancias diárias mais longas do que eu já havia percorrido (minha média costuma ser 70 km) e acampar – acampamento selvagem, pois uma das peculiaridades da Patagônia é que as cidades estão longes uma das outras. Em média, mais de 100 km separam as aglomerações urbanas uma das outras.

Então seria necessário descobrir pelo a caminho lugares onde montar acampamento. Eu já havia acampado com os meus filhos quando eles eram crianças . Então acampar não seria problema.

Mas, confesso que no início fiquei um pouco preocupada com as distancias diárias a serem percorrido e não conseguir acompanhar o grupo – todos jovens.

Convite aceito, hora de planejar e me programar.

A bike : carinhosamente chamada de Dino (Dinossauro)– é velhinha .

Revisada, com bagajeiro dianteiro e travesseiro foi embalada em uma caixa de papelão e despachada sem problemas ou custos pela Aerolíneas Argentinas. Com elas estavam  quatro Alforges da  Ararauna – dois traseiros de 32 l e  dois dianteiros 25 l. Meus companheiros há cinco anos e que gosto  muito .(http://ararauna.esp.br/)

O que levei

Equipamento: barraca  Windy 1 (1,9Kg), Sacos de Dormir Deuter Orbit -5º, isolamento térmico SeatoSummit, lanterna de cabeça , 1 chaleiras , 1 panela, 1 copo ,1 jogo de prato e talheres, canivete multiuso , toalha de banho absorvente.

Roupas:  segunda pele Termo-skin ,casaco de Fleece,2 leg ( não uso calção de pedal) ,3 camisetas manga longa ,3 camisetas manga curta,roupas Íntimas (3 unidades) ,4 Meias simples ,2 meias de super-frio ,1 Gorro,1 par Luvas segunda pele,1 par  Luvas de borracha, polainas impermeáveis, calça impermeável, capa de chuva de plástico, jaqueta corta vento, óculos de sol e chinelo.

Kit de primeiros socorros:  anti-inflamatórios, curativos, ataduras, , gaze, esparadrapo, Band Aid, analgésico, analgésico para cólicas, anti-vômito, antidiarreico, pomada antibiótica , antibiótico de largo espectro (importantíssimo ver com um médico antes da viagem) pomada antimicótica. 

Seguro viagem – importante confirmar se o seguro cobre  praticas esportivas

Itens de segurança: capacete, lanternas, luvas.

Documentação : Passaporte (mesmo não sendo obrigatório),Carteira de Identidade recente,Comprovante Internacional de vacinação contra febre amarela

Sobrevivência financeira : Cartão de credito – eu costumo levar dois – Visa e Master (caso um  não funciona ).

Levei dinheiro em dólares americanos e troquei nas casas de câmbio locais. É possível trocar     dinheiro nos aeroportos, casas de câmbio. Existem diversos caixas eletrônicos que permitem saques. Entretanto, por se tratar de uma região remota a reposição de dinheiro nos caixas pode não acontecer de as vezes não ter disponivel, assim, recomendo que não deixe para sacar todo o dinheiro localmente e leve sempre algum dinheiro em espécie para os gastos.

No Chile a moeda são os Pesos Chilenos (CLP). Circula em moedas de $1, $5 , $10, $50, $100 e $500. E notas de $1,000, $2,000, $5,000, $10,000 e $20,000.

Na Argentina: Pesos Argentinos (ARS). Circula em notas: 2, 5, 10, 20, 50, 100 pesos argentinos. E em moedas: 5, 10, 25, 50 centavos, 1 peso, 2 pesos

Eletricidade / Internet / / Telefone

No Chile e Argentina a corrente elétrica é de 220V. A tomada é geralmente de dois pinos redondos, com o que estávamos acostumados aqui no Brasil, mas você pode encontrar as mais diversas variações. Assim é bom levar adaptadores que sirvam em seus carregadores de câmeras fotográficas, celulares e tablets. Importante ter uma bateria recarregável.

Câmera Digital FujiFilm X-T2

3 Cartões de memória 16gb (um par a mais não teria sido nada mal)

Celular Samsung

Mapas

Eu ainda não costumo (não sei usar) muito as tecnologias existentes (GPS), me sinto segura com os mapas de papel. Em El calafate adquiri alguns .E o guia “Guida al Cammino Nomade MISSIONE PATAGONIA” .

O plano

A viagem foi planejada por um italiano – Rafaelle esposo da Cristiane e teve como  base a experiência de dois ciclista italianos –  Pierluigi Giarrusso e Melissa Osio. O guia deles –  “Guida al Cammino Nomade MISSIONE PATAGONIA adquirido no site www.theevolutionarychance.com .

Patagônia : a nossa viagem

Meu voo partiu de São Paulo com destino a El Calafate.

Eu cheguei na cidade, logo pela manhã, estava ansiosa pelo reencontro com a Cris. Apesar do nosso contato em Santa Catarina ter sido  brevíssimo, a Cris é aquela pessoa que você logo quer ter no coração. Me identifiquei muito com ela . O convite dela foi  significativo para mim. Vou ser sempre grata pela oportunidade que ela me proporcionou. Acredito que não teria feito essa rota se não fosse por ela.

Na cidade me hospedei no Folk Hostel, com instalações impecáveis e com ótima estrutura. O pessoal do atendimento muito prestativo. O Mariano, que me recebeu foi atencioso e logo me perguntou se precisava de ajuda com montagem da bike. Quando disse “Não, obrigado”, ele me perguntou “Você tem fermentas? Sabe usar? Eu disse sim. Ele ficou surpreso (não sei porque rsss ).

No final da tarde a Cris, Rafaele e o Alexandro chegaram no hostel. Foi incrível o meu reencontro com ela!

A noite jantamos , tomando um bom vinho  e colocamos a conversa em dia. Eles me contaram qual seria nosso plano dali para frente.

Ficou decidido que ficaríamos em El Calafate o tempo para explorar a pequena cidade e visitar o  Glaciar Perito Moreno. Depois seguiríamos de ônibus até El Chaltén, também ficaríamos por lá  3 noites e com tempo para fazer alguns trekking e só depois iniciaríamos o nosso pedal.

EL CALAFATE

A cidade de Calafate é relativamente pequena, muito aconchegante e agradável, mais parece um grande shopping center – planejada para o turismo. Por toda cidade quase não se veem residências, apenas hotéis, restaurantes, bares, lojas e mais lojas vendendo um monte de coisas (na minha opinião inúteis e descartáveis) para agradar turistas. Conversando com algumas pessoas fui percebendo que a grande maioria delas moravam por lá só nas altas temporadas. No hostel que estávamos todos os funcionários moravam nele.

A principal atração da cidade é a geleira Perito Moreno, um longo braço do Campo de Gelo patagônico Sul com 30 Km de extensão e 5 km de largura a mais de 70m acima do lago Argentino. Uma das três únicas geleiras em toda a patagônia que ainda cresce, enquanto as demais encolhem.

Mas infelizmente e como cita Guilherme Cavallari em seu livro Traspatagônia, é justamente onde a natureza é mais exuberante que a indústria do turismo se mostra perversa. Usando o pretexto da comunhão com o belo e a justificativa da acessibilidade, constroem-se rodovias, aeroportos, estacionamentos e passarelas para pedestres até que a natureza fique sufocada por concreto.

Mas, a ideia de visita-lo me deixava empolgada.

O passeio ao Glaciar Perito Moreno

O dia seguinte foi dedicado a visitar o Parque Nacional Los Glaciares  com um passeio de barco até próximo ao Glaciar Perito Moreno. (nosso passeio foi feito através da operadora Hielo&Aventura https://hieloyaventura.com/ ). A entrada no Parque Nacional Los Glaciares custa $800 pesos. 

O parque nacional é muito organizado e tem 7 km de passarelas que chegam até muito perto da  enorme parede de gelo . Parte das passarelas é para apreciar a vegetação ao redor, que é muito rica em função da quantidade de chuva.

Na sequencia acima , o momento em que um grande bloco de se desprendeu. Um espetáculo da natureza , que emociona.

MiniTrekking 

Outra experiência vivenciada por nós foi a caminhada de uma hora e meia de andanças por cima do glaciar.  Nada barato ($4.400, ou R$489) , mas imperdível!!!!

Depois de uma curta navegação pelo Brazo Rico (a seção do lago que aparece nos mirantes da estrada, à esquerda das passarelas), desembarcamos num refúgio ao pé de um bosque na outra margem.

De lá fazemos uma curta caminhada até um mirante à beira, e depois fomos para a estação onde ganhamos tração nas duas pernas.

Os monitores do passeio instalam grampões na sola dos nossos sapatos.

Os guias são bacanas e explicam como caminhar. Precisamos manter os pés separados, pisar com o pé inteiro, manter a postura ereta nas subidas.

Caminha-se em fila indiana, com paradas estratégicas para fotografias. As descidas são um pouco tensas.

As fendas azuladas que aparecem a todo momento são belíssimas. Realmente paisagens que enchem os olhos e lavam a alma.

No fim, tudo acaba em uísque, com gelo das geleiras.

De El Calafate a El Chaltén – ônibus

A rota de ônibus de El Calafate para El Chaltén é coberta pelas empresas Chalten Travel, Taqsa, Marga, Cal Tur e pela Patagônia Dreams.

O tempo de viagem é de quase 3 horas e o preço  800 pesos argentinos (55 reais). Para levar as bikes é preciso pagar uma taxa de 30 pesos argentinos, mas elas só vão de tiver espaço no bagageiro. Isso nos foi dito no momento da compra das passagens ( optamos pela Chalten Travel). Esse fato causou uma certa preocupação, pois estávamos com 4 bikes embaladas em caixas. O funcionário da empresa nos orientou a chegar cedo e torcer para que tivesse espaço. Caso não houvesse eles poderiam mandar as bikes no ônibus seguinte. (essa hipótese deixou todos muito preocupados).

Na manhã seguimos logo cedo para a Estação de ônibus, nossas bikes foram as primeiras a chegar, não demorou muito chegou um casal de Alemães com mais duas bikes embaladas. A aflição só foi aumentando. O Rafaele foi conversar com o responsável pelas bagagens que deixou claro: primeiro as bagagens comuns e depois as bikes. Só nos restou esperar, observar o garoto acomodando com maestria as bagagens e torcer. Enfim com muito jeito ele conseguiu acomodar as 6 bikes todas embaladas no bagageiro. Ficamos tão agradecidos que deixamos para o garoto uma boa gorjeta – Afinal ele fez milagre.

Passado o sufoco e acomodados seguimos tranquilos a nossa viagem, em um confortável ônibus por uma excelente estrada.

Antes de chegarmos à minúscula rodoviária dessa pequena cidade em que vivem menos de 2 mil pessoas, o ônibus fez uma parada na administração do parque nacional e todos descemos para ouvir as orientações do guarda-parque. A principal delas foi sobre os cachorros de rua.”

“Não permita que os cachorros te seguiam pelas trilhas, provavelmente eles não aguentaram por muito tempo porque elas são longas, eles podem se perder nos bosques e morrer. Se necessário, quando forem pegar uma trilha, joguem pedras neles para que eles fiquem na cidade.” Eles também explicam os itinerários das caminhadas, distribuem mapas e fazem recomendações com base na previsão do tempo para os próximos dias.

A partir da El Chaltén, existem nove roteiros que variam de uma hora até sete horas só de ida. A rotina dos passeios é sair cedo e voltar no fim da tarde, mas há quem prefira fincar bases em algum dos campings em lugares remotos. Todas as caminhadas em El Chaltèn podem ser realizadas de forma independente, sem a necessidade de um guia e são gratuitas (você não paga uma entrada no parque ou na trilha específica). Nesse sentido, é uma experiência de natureza das mais autênticas. O Rafaele já tinha tudo programado e, quais as trilhas que iriamos percorrer.

Chegando a rodoviária,

o Rafaele decidiu que levaríamos as bikes nas caixas até o camping (que não tínhamos reservados). Ele e o Alexandro ficaram na rodoviária cuidando delas, enquanto eu e a Cris saímos a procura de um Camping. Visitamos uns três e optamos por ficar no Camping El Relincho, com algumas árvores nativas a alguns metros do Rio de Las Vueltas. Um camping com uma infraestrutura muito boa. O custo foi 250 pesos argentinos por pessoa.

Nesse dia, depois de montar as barracas e nos organizarmos, ainda tivemos tempo para fazer  duas trilhas próximas – O  mirador de Los Condores e o Mirador de Las Águilas.

A partir de El Chaltén, atravessamos a ponte de acesso sobre o rio Fitz Roy e continuamos até o início do caminho que começa no National Park Visitor Center. Passamos por  um pequeno portão, onde uma placa sinalizava o caminho. Em algumas etapas, outra placa informativa mostrava um esboço do caminho.   Tudo muito bem sinalizado e, a caminho, possui vários pôsteres informativos.

O caminho para o mirante de Las Águilas começa na bifurcação marcada cerca de dez minutos antes de chegar ao mirante de Los Cóndores.

Dia estava lindo, mas o vento arrasador parecia querer nos levar, de fato manter-se em pé ali foi um desafio. Mas a vista da cidade com o Fitz Roy ao fundo foi memorável!

No dia seguinteO Rafaele já foi montanhista e estava determinado a conhecer as trilhas: a Laguna Torre e o Cerro Fitz Roy.  Eu só peguei carona nos planos dele. Com um mapa nas mãos e atento as placas de sinalizações, seguimos primeiro rumo a:

Laguna Torre.

A trilha da Laguna Torre é de 3h (só ida) saindo por um atalho na avenida San Martin, por dentro dos bosques e ao longo do rio Fitz Roy. A primeira hora é de subida e é exaustiva. Não é íngreme, é fácil, só é um pouco cansativo. Depois o caminho quase todo anda em terreno plano intercalando bosques e estepe. 

Tanto a ida quanto a volta seguem o mesmo caminho, fomos caminhando vendo a montanha o tempo todo, na trilha da Laguna Torre é possível ver o Cerro Torre apenas uma parte do caminho. Caminhamos horas, até passar o acampamento base D`Agostini, utilizado por alpinistas com destino ao cume do Torre.

Logo depois, após uma subida, aparece a Laguna Torre. O ponto final da trilha, uma lagoa imensa. Ela é formada pelo degelo da geleira que tem o mesmo nome e de onde se tem a vista do Cerro Torre de 3100m de altura, claro, quando as nuvens permitirem. O dia estava bonito, mas uma nuvem teimosa insistiu em esconder o cume do Torre. 

Quando voltamos da Laguna Torre, o Rafaele conclui que tínhamos tempo suficiente para seguirmos a trilha Fitz Roy. Então lá fomos nós.

Trilha Fitz Roy

A trilha rumo ao Fitz Roy é bem demarcada. Mas, exige bastante dos joelhos e é necessária uma boa resistência física para vencer os 12km de ida, e voltar mais 12km. 

Já no começo da trilha existem várias sinalizações, inclusive as que indicam que a água que corre pela trilha é potável, portanto, leve a garrafinha. No começo a subida é pouco difícil, mas depois a caminhada intercala entre vales, bosques, atravessa um labirinto de árvores baixinhas. 

Nos primeiros 10km de caminhada é possível ver o Fitz Roy o tempo todo. O tempo vai variando, nuvens aparecem e somente chegando na ponte do Rio Branco, passado o camping Poincenot, no ponto onde se segue para a Laguna de Los Tres ou segue o caminho do glacial é que não se vê mais ele.

Nós seguimos rumo ao Glacial Piedras Blancas, sem ir até ele e de lá subimos. Uma subida tão puxada que eu achei que não ia conseguir vencer aquelas centenas de metros. Muitas pedras soltas, eu  fui subindo quase de joelhos, de tão íngreme que era.

Quase chegando…

Quando estávamos quase chegando o relógio já marcava 17 horas, tivemos que acelerar pois há horário para voltar. Encontramos um guarda parque que nos alertou sobre o pouco tempo que tínhamos e ainda nos disse: “o céu está sem nuvem é possível ver o cume da montanha”. Nesse momento nos aceleramos muito, o esforço foi brutal.

Chegando no topo veio a recompensa: o Fitz Roy estava ali, cara a cara a conosco. Chegamos na base dele. Foi emocionante! Já quase não havia pessoas por lá e o cume da Montanha estava livre, sem nuvens.

Na volta fizemos a trilha que passava pela Laguna Capri, pois o tempo já estava ficando curto. E de novo tivemos que acelerar para não chegar à noite no povoado.

Voltamos para o povoado já quase noite e muito cansados. Mas a sensação de bem-estar causada pelo tempo de contemplação que tivemos percorrendo bosques e encarando montanhas fazia com que todo o cansaço dissolvesse.

Fizemos um total de 37km de trilhas no mesmo dia. Foi uma loucura, mas inesquecível!!!!