Patagônia : Um espetáculo que aquece a alma do cicloviajante.

7º dia – O Parque Nacional Torres Del Paine 

Acordei ansiosa pensando se havia feito a escolha certa em seguir sozinha. Havia chegado bem até o parque, mas o futuro estava incerto. Eu havia pego carona na viagem do grupo. Não havia planejado nada e nem lido ou estudado

Eu costumo estudar muito antes de ir para um destino distante. E mais ainda quando é tão inóspito como esse. Mas dessa vez me deixei levar, e fiquei muito apreensiva sobre o que estaria por vir. Tentei relaxar, afinal estava e um dos lugares mais esperado por mim – Torres Del Pine. O Parque Nacional   (http://www.conaf.cl/parques/parque-nacional-torres-del-paine/) foi fundado em 1959 e possui mais de 227 mil hectares. O principal destaque do parque é a Cordilheira Paine, uma formação que inclui as três agulhas de granito conhecidas como Las Torres Del Paine. Meu objetivo ali era justamente conhecer de perto as três agulhas de granito.

No dia anterior conversei muito com o pessoal da portaria, a respeito das trilhas e da segurança. Eles me informaram que não teria problema fazer a trilha sozinha, mas que era uma trilha Mirante da Base (a que escolhi percorrer), que exigia um bom desempenho físico, e com um tempo médio de caminhada (ida e volta) é de oito horas.

O trekking até a incrível base das torres

Então sai muito cedo do Refúgio e segui caminhando. Logo depois do Hotel Las Torres segui em direção ao Refúgio El Chileno (5,5 km), passei por ele e continuei por mais 3 km até o Acampamento Torres. Desse ponto, quase 1 km para chegar à base das três pedras pontiagudas que formam as torres e onde se encontra um lago formado por água de degelo, o relevo é praticamente vertical em trilha não demarcada com muitas pedras soltas e sem nenhuma vegetação para aliviar o calor. Para se ter uma ideia, para percorrer esse trecho curto levei mais uma hora, parando várias vezes para descansar. A minha preocupação era tropeçar e ter o pé preso em alguma das imensas pedras.

Eu confesso que quando cheguei ,não acreditava. Mas uma vez eu dei conta.

Todo o percurso é fantástico, com vistas para as geleiras, penhascos, rios e bosques. A composição de uma lagoa de água límpida e esverdeada com as três agulhas, as Torres Del Paine, dava a sensação de chegar no paraíso. É indescritível a beleza deste lugar, vale todo o esforço da subida.

O total da caminhada de ida até as torres e de volta ao Refúgio Torres Central foi de 19 km.

Eu voltei em estado de graça,literalmente!!!!!

8º dia – TORRES  DEL PAINE – CAMPING SERRANO

Esse seria o próximo trecho, mas eu estava literalmente insegura.  Como disse,havia pego carona na viagem do grupo. Não tinha lido e planejado a rota ( como costumo fazer , sempre que viajo) Não tinha ideia de como encontraria o próximo Camping ( teria vaga? faria  um Camping selvagem sozinha?) Deixei o Refugio rumo a entrada da Laguna. Segui pensativa . O que fazer?

E se eu seguisse rumo ao Camping Serrano e não encontrasse vaga?

Minha dúvida acabou quando cheguei na entrada do parque e  havia um ônibus ( muita sorte) que seguiria para Puerto Natales. Conversei com o motorista , coloquei minha bike no bagageiro e segui viagem. Foi uma decisão acertada! Não tinha porque seguir viagem sozinha por um lugar tão inóspito. E principalmente por não me sentir segura. Tudo o que tinha visto ate agora era lugares ermos

Quando conversei  com o motorista  disse que gostaria de parar  antes de chegar em Puerto Natales . Ele sugeriu uma parada no terminal Skorpios, alguns quilômetros antes da cidade. Isso me daria a oportunidade de entrar em Puerto Natales pedalando. ( bobeira..rs)

Puerto Natales

Fiquei três dia na cidade, na esperança de reencontrar o grupo. Se eles seguissem o plano estabelecido, chegariam na cidade no segundo dia que eu estava lá. Então no fim da tarde, eu ia para a  entrada da cidade na esperança de encontra-los. Mas, nada!

No terceiro dia de novo fui para entrada da cidade e na hora exata que eles chegavam e também cheguei. Mas, não foi um reencontro animador. Eles estavam exaustos e não foram receptivos. Até entendo, afinal eu havia tomado a decisão de seguir sozinha.

Acompanhei o grupo até o Camping onde eles ficariam e me despedi. Foi a ultima vez que os vi.

O cenário em que  Puerto Natales está imerso é algo absolutamente mágico: o Oceano Pacífico que banha as costas de sua baía pacífica, centenas de pássaros de diferentes espécies nadam em suas águas geladas ou descansam no píer, as montanhas cobertas de neve ao fundo. É acolhedor!

Depois de 3 dias …

Sozinha, tentei seguir o guia.

 PUERTO NATALES – VILLA TEHUELCHE 

De acordo com o guia essa seria a meta do dia. Montei minha bike, e sai pedalando. A estrada é de asfalto e quase toda plana.

Um leve vento a favor me empurrava em sentido  a pequena vila de Villa Tehuelche. A cada 10 / 15km via casas (algumas abandonadas), estâncias e pontos de ônibus. A monotonia da estrada me deixava desaminada. Não estava desfrutando do caminho. Só queria que tudo aquilo acabasse.  Estava cansada e decidi parar para descansar.

Foi quando uma camionete com um casal parou. Me vendo ali sozinha, perguntaram se eu precisava de ajuda. Eles estavam indo para Punta Arenas. Aceitei a carona sem questionar. Fomos conversando eles estavam curiosos para saber o que uma mulher sozinha estava fazendo ali. Contei como havia perdido o contado com o grupo. Eles eram chilenos e me contaram um pouco porque aquelas estradas são tão cobiçadas pelos aventureiros.

mas ….no meio do caminho uma carona me levou  a Punta Arena

Da janela do carro via a infinita e vasta estrada de asfalto. A monotonia que via fez com que o sentimento de frustração que sentia por não ter seguido pedalando e me rendido a carona, fosse embora.

Agradeci imensamente a generosidade do casal Sebastian e Antônia.

Punta Arena

Punta Arenas também foi fundada inicialmente pelo governo chileno para ser uma pequena colônia penal. Conforme os anos foram passando, a cidade foi crescendo até se tornar uma importante cidade portuária.Fiquei hospedada no Hostal Rynaike.

Uma experiencia incrível por lá, foi uma visita a Isla Magdalena

Declarada parque nacional em 1966 e reclassificada como monumento natural em 1982, a ilha é o habitat, por alguns meses do ano, de um bando de pinguins-de-magalhães que chegam para chocar os ovos e aumentar a família. Eles ocupam toda a ilha e depois que os filhotes nascem, a população sobe para 120 mil.

O número de pinguins e o som que fazem e realmente surpreendente.

PUNTA ARENAS – PORVENIR – ( Ferry)

De Punta Arena segui para Porvenir de ferry. Sai às 9h de  e cheguei às 11h15hs. O custo do ferry e de 6.800 pesos chileno. Foi uma travessia tranquila com visual muito bonito.

Depois do porto, pedalei 4 km de asfalto até a Vila Porvenir, onde passaria a noite .Fiquei hospedada no Hostel El refugio.

Na pequena cidade aproveitei para conhecer um museu que falava da história local, contando sobre a população indígena e a imigração europeia.

De Povenir até  San Sebastián 165 km de estrada de terra / rípio até onde começa o asfalto da Rota Nacional 3. Nesse trecho existe apenas pequenas casas de pescadores na praia e grandes “Estâncias” (fazendas).

Teria que encontrar alguma estância que me abrigasse, sabia que nesse trecho era difícil acampar por causa da total ausência de árvores que o protegem do vento constante.Tentei contato com a Estância Armonia , antes de seguir viagem e não obtive sucesso. Então mais uma vez fiquei insegura em seguir sozinha a viagem

O dia amanheceu chuvoso , frio e  com muito vento. Tentei seguir viagem pedalando. A chuva aumentou , e depois de 10km pedalando resolvi voltar para Povenir. Lá fui a vários lugares para perguntar sobre a possibilidade de alugar um táxi para que deixar em San Fernando. Não consegui, ninguém.

Decidi então, voltar para Punta Arena. Esperei pelo ferry que saia no final do dia. Pernoitei mais uma noite em Punta Arena. Resignada decidi que na manhã seguinte iria de ônibus para Ushuaia. A passagem custou 35.000 pesos. Para colocar a bike no bagageiro foi exigido que tirasse a roda da frente.

Chegando em Ushuaia, montei a bike e sai em busca de hospedagem. Fiquei no Hostel Yakush.

Na manhã seguinte  segui rumo ao  Bahia Lapataia

Bahia Lapataia está localizado dentro do Parque Nacional Terra do Fogo.  O “Fim do Mundo” fica a cerca de 25 km de Ushuaia.

É o ponto mais ao sul da rodovia mais longa do planeta.  A placa marcando o final da Rota Nacional 3, a última etapa da rede Pan-American Highway. 

Perto da placa, há um calçadão que leva à baía, um fiorde remoto na ponta da Patagônia Argentina. O fiorde é um ramo do Canal de Beagle, que recebeu o nome do barco que carregava Charles Darwin em sua jornada. A área ainda é popular entre os naturalistas que procuram aves marinhas, golfinhos e outros animais de água fria. A maior parte da terra ao redor da baía está agora protegida.

Esse deserto isolado é habitado há 10.000 anos, recentemente apenas pelos indígenas Yámana, que deram o nome à baía, que significa “Baía das Florestas” na língua nativa Yámana. 

 E foi assim cheguei ao “fim do Mundo”. Uma viagem cheia de aprendizado e realmente para ficar na memória.

Há uma frase de Darwin que diz: “Tudo neste continente do sul foi calculado em larga escala” e é exatamente isso que acontece aqui: tudo é exagerado, a terra selvagem, as montanhas íngremes, a água transborda e escoa como rios procurando pelo oceano.

Lindo de ver e sentir….