Rota Romântica de bike  

Esse foi o meu primeiro circuito de bicicleta sozinha no Brasil.

Em muitos dos meus projetos de cicloviagem, a dificuldade está em encontrar companhia. Eu tenho muita disponibilidade de tempo, meus amigos não. Mas viajar sozinha não é um problema para mim, já fiz varias viagens de longa distância dessa forma. Todas relatadas aqui.

Viajei várias partes do mundo sozinha, até ao Japão eu fui, mas nunca havia pedalado sozinha no Brasil. Sempre que pensava ou falava sobre viajar sozinha no BRASIL, era retrucada com um monte de manifestações do tipo: “você é louca”, “pensa que o Brasil é Europa?”, “você vai ser assaltada”. Enfim, uma quantidade imensa de possibilidades negativas eram citadas. Claro que a preocupação existe, e por isso é importantíssimo analisar o roteiro, planejar e prever situações de risco.

Eu jamais viajaria na região do Rio de Janeiro sozinha, por exemplo. Sei que o perigo mora em todos os lugares, mas tem regiões que devemos evitar. Quando viajo, independente para onde, sempre sigo algumas “regras”: estudo muito sobre o lugar onde estou indo, me visto de forma bem casual, para não chamar atenção e passar despercebida e, se me perguntam, nunca digo que estou só (o “meu grupo” ou está à frente ou ficou para trás), todo cuidado é pouco.

A minha maior preocupação em viajar sozinha de bicicleta pelo Brasil era ser discriminada e hostilizada. Visto que estamos em um país onde a cultura de viajar de bicicleta ainda está se desenvolvendo. Mulher viajando de bicicleta ainda é coisa rara.  Diferente de outros países por onde passei.

Mas confesso que fazer uma viagem de longa duração no Brasil era um desejo e também tinha muita curiosidade em saber como seria.

Um desejo realizado

Um dia, vi em um noticiário que seria inaugurada uma nova rota de cicloturismo no Rio Grande do Sul, denominada “Circuito de Cicloturismo Rota Romântica”.

Analisando o circuito, me senti confiante principalmente pela estrutura oferecida –  rotas sinalizadas e um percurso que prometia ser encantador.

A primeira atitude que tomei foi entrar em contato com os organizadores do projeto. Foram várias conversas e a cada uma delas, me sentia mais tranquila. Tive também apoio do Daniel e do Ederson – ciclistas e responsáveis pelo Pedalando no Sul (Operadora oficial da Rota – Contatos: 54 99217.3088 ou [email protected]).

Eles foram atenciosos e me tranquilizaram quanto à segurança do percurso. E apesar de não contratar seus serviços (eles alugam bike, dão apoio logístico e carro de apoio para aqueles que desejam), colocaram seus telefones à minha disposição para qualquer emergência. 

Esse é outra dica importante: quando viajar sozinho, tenha sempre um contato de emergência de alguém que mora nas proximidades do percurso, e dê notícias pelo menos a cada dois dias. Pode ser  um dono de pousada, um centro de informações turísticas, e se tiver amigos e familiares por perto, melhor ainda!

Enfim, eu saí de Araçatuba em um voo com destino a Porto Alegre. Pois é, de Araçatuba a Nova Petrópolis – ponto inicial do circuito – são 1.200 km. Chegar lá de carro estava totalmente fora de cogitação. Eu pedalo milhares de quilômetros, mas dirigir sozinha, nem pensar. Então o jeito foi desmontar a bike e encarar o avião.

De Porto Alegre a Nova Petrópolis, agendei a viagem com a Rorato Transfer.  E tudo saiu como combinado.

O Circuito

O circuito passa por estradas secundárias e, em sua maioria, não pavimentadas, interligando as 14 cidades que compõem a Associação Rota Romântica, passando por Nova Petrópolis, Picada Café, Linha Nova, Presidente Lucena, Ivoti, Estância Velha, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Dois Irmãos, Morro Reuter, Santa Maria do Herval, Gramado, Canela e São Francisco de Paula, totalizando 355 quilômetros com cenários deslumbrantes em meio à natureza.

O circuito é  autoguiado e pode ser realizado de forma independente. Aconselha-se um período de 7 a 9 dias a quem optar pela realização do percurso completo, para aproveitar todas as belezas que os municípios proporcionam.

O projeto é pioneiro no estado gaúcho e tomou como referência projetos como o Circuito do Vale Europeu de Santa Catarina. O  Circuito da Rota Romântica também oferece um passaporte para as pessoas que quiserem guardar o registro da sua viagem como lembrança. Em cada cidade há pontos onde esse passaporte deve ser carimbado. Para aqueles que conseguirem completar ao menos 11 das 15 etapas é entregue o certificado. Particularmente, os carimbos e certificados não me chamam atenção, mas sei que sou exceção.

Os organizadores do  circuito da Rota Romântica elaboraram um guia técnico com informações muito úteis, incluindo altimetria e distância de todos os 15 trechos do trajeto, além de indicação de pontos de apoio aos ciclistas como água potável, locais de hospedagem, gastronomia e locais para manutenção das bicicletas. O guia está disponível no site.

Sinalização

Durante todo o trajeto, há sinalização viária com placas interpretativas, indicativas e folhas de plátano.

As placas interpretativas ficam no início e no final de cada trecho e contém informações como: distância do trecho, classificação de percurso e plano altimétrico.

As placas indicativas estão dispostas ao longo dos trechos. A seta amarela indica a direção e na parte inferior contém informações complementares sobre pontos de interesse ou recursos como água potável.

As sinalizações em formato de folha de plátano estão pintadas em postes, geralmente de concreto, dispostas entre as placas indicativas, reforçando que o caminho está certo e que se deve seguir em frente.

O ponto de partida

O ponto de partida sugerido é Nova Petrópolis, mas isso não impede que se utilizem outras cidades para começar o roteiro, ou mesmo fazê-lo em partes, de acordo com o nível técnico e os interesses de cada pessoa.

Cada percurso conecta centros urbanos, garantindo pontos de apoio ao ciclista como hospedagem, restaurantes e locais de abastecimento.

Eu aceitei a sugestão dos organizadores e comecei em Nova Petrópolis. Segui o guia disponibilizado, trecho a trecho, exatamente como está descrito.

Na cidade fiquei hospedada no Hotel Petrópolis – os proprietários também são ciclistas. Eles prontamente me ajudaram com a montagem da bicicleta e foram muito amáveis.

Fiquei dois dias por lá, a pequena cidade é um encanto. Conhecida como Jardim da Serra Gaúcha, possui, como o nome sugere, jardins com flores de todas as cores, formas e perfumes. Eles estão em todos os cantos, até em cercas de estacionamentos.

Colonizada por imigrantes Alemães, a região mantém construções no padrão germânico e até o idioma alemão pode facilmente ser ouvido por lá.

1ª etapa: Nova Petrópolis a Picada Café – 37,9 km 

Deixei o hotel por volta das 8 horas depois de um belíssimo café colonial.

 

Segui pedalando até a Torre de Informações Turísticas – uma torre medieval construída no exato local onde os pioneiros costumavam descansar e de onde eles tinham uma visão geral das terras em que seria construída a “Nova Pátria”. O prédio foi inaugurado em 1990. Quando passei por lá, estava em obras para revitalização e manutenção da estrutura.

É ao lado esquerdo da torre que se encontra a primeira placa da rota – o marco zero. 

Dali segui pedalando e já nos primeiros quilômetros de terra batida a paisagem era encantadora. Eu já podia sentir cheiro de mato e ouvir pássaros cantando. Tudo indicava que eu teria um dia muito prazeroso.

Mas eu estava nas serras gaúchas e não demorou muito para que eu enfrentasse minha primeira subida. Ela não durou muito, mas foi o suficiente para perceber o que encontraria pela frente.

Quando pedalo gosto de parar para fotografar. Em um desses momentos estava tão absorvida pela paisagem e pelo silêncio do lugar que não notei a aproximação de um senhor agricultor, que arava suas terras e, ao me ver. perguntou com espanto: mas aonde vai essa senhora com essa bicicleta carregada? Conversamos um pouco, ele me contou um pouco da região e sobre seus antecedentes germânicos e me tranquilizou:  essa subida já está no fim, logo é só descida até Picada Café.

Logo depois cheguei à Capela São Jacó, na Comunidade de Sobra

De lá o percurso seguiu tranquilo por mais alguns quilômetros. Até me deparar com uma descida forte, onde todo o cuidado foi necessário.

Picada Café

Cheguei em Picada Café no início da tarde. Ainda tive tempo de encontrar um pequeno restaurante e almoçar. Depois fui em busca de hospedagem. Encontrei uma pousada muito charmosa e agradável chamada Pousada Camponesa.  

Segundo os moradores, o nome da cidade originou-se de uma picada (atalho aberto na mata a golpes de facão) criada pelos imigrantes onde paravam os viajantes para tomar um bom café.  No entanto há uma outra versão, que na verdade, se complementa à primeira. No Império Brasileiro de 1800, o governo distribuiu sementes de café aos colonos imigrantes para que os mesmos as usassem para plantação de subsistência.

O dia foi de esforço bastante significativo, teve subidas e descidas técnicas. A paisagem compensou, e em nenhum momento do percurso me senti insegura. Não encontrei nenhum ciclista e cruzei com um carro apenas em todo trajeto.

2ª etapa: Picada Café a Ivoti –  38 km 

Deixar a pousada em que eu estava não foi fácil. Com  certeza ficaria mais dias ali. O lugar possui um cantinho verde com uma rede (amo) que me convidava a permanecer.  Mas eu estava no início do pedal, tinha alguns dias pele frente, então logo pela manhã segui pedalando rumo a Ivoti.

Segundo o guia, o esforço para realizar essa etapa era menor comparado ao dia anterior. Seria, se não fosse o sol forte. Logo pela manhã o calor e sol prometiam ser os inimigos do dia. Estávamos no mês de novembro, quase verão.

Continuei pedalando, um quilômetro depois da saída de Picada Café, já estava na estrada de terra novamente. Um trecho tranquilo me levou até Linha Nova, distante quase dez quilômetros do ponto de partida.

Linha Nova

A pequenina cidade é conhecida como Berço da Cervejaria no Rio Grande do Sul. Minha passagem foi bem rápida, a cidade é pacata e seus atrativos estão no percurso – a beleza natural: o Morro do Mirante e as cascatas, que ficam em meio à trilhas e à mata nativa.

Logo depois de deixar Linha Nova, enfrentei uma descida muito forte em uma estrada pavimentada. Todos reclamam das subidas, mas é nas descidas que os acidentes acontecem. Principalmente quando se está viajando sozinho, os cuidados devem ser redobrados.

Presidente Lucena

Esta cidade, também minúscula, foi minha próxima parada. Sua história começa em 1750, quando os tropeiros levavam o gado até São Paulo. Eu passei por ela sem parar. O sol e o calor só aumentavam e eu tinha pressa para chegar ao destino final antes que eles me castigassem mais.

Depois de Presidente Lucena, voltei a pedalar por um trecho de terra batida e logo veio uma subida bem íngreme. Ou seja: sol, calor, subida e, para completar, um descampado. Não havia uma sombra. Por conta da dificuldade do percurso eu tive que empurrar a bicicleta em alguns momentos.

A essa altura, a água que levava já era usada para esfriar a cabeça e me refrescar. Esse “desperdício” foi consciente. Tinha água suficiente para chegar à minha próxima parada: o Núcleo das casas Enxaimel – distante seis quilômetros do local onde estava e cinco quilômetros de Ivoti.

Núcleo de Casas Enxaimel

É um conjunto de seis construções datadas do século XIX e início do século XX. No local, hoje chamado de Feitoria Nova, instalaram-se as primeiras famílias de imigrantes alemães. Essas famílias construíram casas em estilo enxaimel, técnica construtiva que utiliza estrutura de madeira sem pregos ou parafusos. As paredes são preenchidas com pedras e cimentadas com argila.

O lugar é muito interessante e vale a visita. Das casas existentes, uma delas é hoje a Casa do Artesão e a outra o Museu Cláudio Oscar Becker. O museu possui diversos elementos que faziam parte do dia a dia das famílias de imigrantes alemães. Nele estão expostos objetos, móveis e utensílios doados pelas famílias da região e que, de alguma forma, contribuíram para a formação das comunidades locais. Infelizmente estava fechado.

Depois de explorar o lugar, atravessei a Ponte do Imperador (Patrimônio Histórico) e continuei pedalando para o destino final do dia: Ivoti, conhecida como a Cidade das Flores. Também pudera: uma cidade com o nome de Flor (Ivoti significa “flor” em Tupi-Guarani) só podia receber este título. Já na cidade segui para o Sítio dos Rochedos onde faria o pernoite.

3ª etapa: Ivoti a São Leopoldo – 26 km

Esse trecho foi para mim o mais chato e entediante. Quase em sua totalidade percorrido em estradas asfaltadas, as vezes sem acostamento, e muito tempo percorrendo a periferia de Nova Hamburgo – tanto no sentido de Estância Velha como de Nova Hamburgo a São Leopoldo. Teve momentos em que me senti muito insegura.

Novo Hamburgo é uma cidade grande e como todas, sua periferia gera tensão. Eu pedalo muito tranquila pelo meio da mata e zona rural. As vezes até esqueço que estou só. Mas é só chegar em cidades maiores que fico mais cautelosa.

Infelizmente era dia de eleições municipais e, como várias cidades estão próximas umas das outras, o trânsito estava infernal. Sem acostamento, alguns trechos foram tensos.

Mas cheguei em São Leopoldo sã e salva. Foi um trecho curto. Fiz uma parada em Novo Hamburgo. Claro, visitei sua catedral – belíssima.

No caminho parei para conversar com um gaúcho e sua esposa. Foi uma conversa prazerosa e, como um bom gaúcho, ele me ofereceu um chimarrão. Eles  faziam um churrasco em frente ao seu mercado.  Me contaram que antes da chegada dos primeiros europeus, no século XVI, a região era habitada por índios carijós.  Só não fiquei para o churrasco porque precisava seguir viagem.

Cheguei em São Leopoldo com tempo de explorar a cidade e procurar um lugar para ficar. Encontrei um hotelzinho muito aconchegante – Work Hotel. Fiquei dois dias ali. Depois de muita serra, precisava de um dia de descanso.

4ª etapa: São Leopoldo a Dois Irmãos – 38 km

Logo pela manhã deixei a cidade de São Leopoldo. A temperatura seguia alta e o sol prometia ser muito quente. 

Nesse trecho eu voltaria a contornar a periferia de Novo Hamburgo, voltando no sentido de Dois Irmãos. Tanto Novo Hamburgo como São Leopoldo são cidades de colonização alemã e com mais de 200 mil habitantes, para mim já é cidade grande. Pedalar por elas – para quem ama cidadezinhas, zona rural e um povo “caipira” – não foi muito agradável.

Novo Hamburgo é conhecida como a “Capital Nacional do Calçado”. É considerado o maior polo comercial do Vale do Rio dos Sinos; já São Leopoldo é uma cidade universitária, é nela que acontece, sempre no mês de julho, a maior festa da Imigração Alemã.

O Vale do Rio dos Sinos é uma localização privilegiada, onde os morros se mesclam com imensas áreas agrícolas.

O dia seguia com sol quente e um calor insuportável.

As temperaturas aumentavam dia após dia. Segundo os moradores do local uma onda de calor havia atingido a região. Francamente eu já  esperava pelas fortes subidas da serra, mas não pela subida da temperatura local. Precisei levar água a mais para me refrescar, pois as sombras eram escassas.

Saindo de São Leopoldo, segui pedalando até passar por um trecho de terra (Estrada do Quilombo) e logo após continuei por uma estrada pavimentada. O guia faz referência a um local chamado Sítio da Bike e eu esperava encontrar alguém por lá, mas infelizmente estava fechado. Em seguida continuei por uma estrada que me levou por Novo Hamburgo. No caminho  encontrei o Pitstop do Ciclista – uma parada perfeita para uma água de coco geladinha!

Foram vários trechos dentro do perímetro urbano com muitas subidas íngremes. Até encontrar o trecho que me levaria ao destino final do dia: a pequena e encantadora cidade de Dois Irmãos.

Dois Irmãos

É uma cidade encantadora, daquelas em que os moradores põem suas cadeiras na praça para apreciar o fim da tarde e tomar chimarrão. Além disso, é rodeada por morros e natureza. Fiquei no primeiro hotel que encontrei – Cha Klein Ville Plus –, deixei minha bike, acomodei meus alforjes e fui sentar na praça. E, claro, depois de um dia quente com temperatura altíssima, só uma cerveja gelada para relaxar. Realmente, Dois Irmãos faz jus à forma pela qual é conhecida, “um doce de cidade”.

Monumento homenageia as primeiras famílias alemãs que se estabeleceram na cidade.

5ª etapa: Dois Irmãos a Gramado – 26,6 km + 20 km de táxi

Logo cedo na manhã seguinte deixei Dois Irmãos. O plano era seguir pedalando até Gramado. No percurso passaria por Morro Reuter e Santa Maria do Herval.

O pedal seguiu tranquilo com apenas uma subida forte até Morro Reuter, distante apenas dez quilômetros.  A cidade é pequena e tem um monumento muito interessante. Uma escultura com 11 metros de altura, feita a partir de uma pilha de 72 livros.  Uma forma de eternizar a paixão de seus moradores pela leitura.

A população local tem um índice de desenvolvimento de causar inveja a qualquer município e se destaca por ter quase cem por cento da população alfabetizada.

Passei rapidamente por ela, pois o céu começou a ficar escuro. Deixei para trás o Mirante, de onde se tem uma vista deslumbrante da região. E segui pedalando por trechos que alternavam estradas pavimentadas com terra batida.

Depois de vários dias de temperatura altíssimas, chuvas eram esperadas. E elas vieram. Eu estava chegando em Santa Maria do Herval, quando o céu ficou escuro com nuvens carregadas. E uma chuva torrencial me obrigou a parar.

Santa Maria do Herval é uma cidade minúscula, com pouco mais de seis mil habitantes e sem opção de hospedagem. Suas atrações estão nas paisagens naturais de cascatas, cachoeiras e cavernas; mas, com as chuvas, não pude explorá-las.

Eu estava a 26,5 km de Gramado, teria pela frente um trecho de estrada de terra, e eu não tinha ideia dos estragos que a chuva poderia ter causado. Seguir sozinha parecia arriscado.

Conversei com um morador local e ele me aconselhou a não seguir. Foi muito prestativo e me ajudou a encontrar alguém disposto a me levar até a primeira pousada que encontrássemos no caminho. Conseguimos acomodar a bicicleta no bagageiro do carro e seguimos. Fui privilegiada.

Deixando Santa Maria

Então, aproximadamente 20 quilômetros depois de Santa Maria, encontramos uma pousada. Ainda faltava um pouco para chegarmos em Gramado, mas decidi me hospedar ali. Me acomodei e depois de um banho quente descansei em uma rede na sacada, ouvindo o barulho da chuva e vendo ela cair. Com o vento ela parecia dançar para mim. Foi muito relaxante.

Na manhã seguinte, depois de um café delicioso, me despedi das pessoas da pousada e segui em direção à Gramado – distante oito quilômetros. A chuva tinha dado uma trégua. O ar da manhã estava bem agradável e o cheiro de mato molhado uma delícia. Meu percurso foi por uma estrada de terra batida e por trechos pavimentados.

Foi bem tranquilo chegar à mais famosa cidade do Rio Grande do Sul: Gramado. Era perto do Natal e a cidade estava lindamente enfeitada. Explorei as ruas pedalando e depois fui até a oficina de informações turísticas à procura de acomodação. Optei pelo Hostel Eleganz, próximo à avenida onde tudo acontece em Gramado.

Na cidade fiquei dois dias, eu já a havia visitado anteriormente, mas não nessa época tão festiva!

6ª etapa: Gramado a Canela – 14,7 km

Foi um dos trechos mais lindos, infelizmente curto, apenas 14 km. O percurso seguiu por uma floresta, cheia de curvas, com uma descida bem forte no início e uma subida bem íngreme logo após. 

No final de uma subida parei para ouvir um som imponente que vinha da mata. Era um som intenso e parecia uma conversa. A sorte é que eu já tinha ouvido esse som antes, sabia que era o ronco do Bugio, senão teria me assustado.

O macaco bugio pode ser encontrado no Rio Grande do Sul, sempre próximo de regiões florestais. São animais sociais, vivem em grupos familiares, sempre liderados por um macho.

Eu parei ali por um tempo, encantada com a força dos roncos. Soube depois que eles são capazes de gritar por vários minutos ou até por horas, como alerta de perigo ou para demarcação de território. Os moradores antigos diziam que era sinal de chuva. E realmente o tempo estava nublado.

Deixei os macacos em paz e logo cheguei em Canela, outra cidade encantadora e muito conhecida no Rio Grande do Sul.

Segui direto para o marco principal da cidade – A catedral de pedra, construída em estilo gótico, é belíssima. Estava toda cheia de luz devido às comemorações do Natal. Um show de luzes.

 

Como cheguei cedo, fui até um pequeno e charmoso restaurante próximo à praça e fiz um lanche, sem pressa. Próximo dali vi uma pousada (Sky Ville Hotel) e nela fiquei.

 7ª etapa: Canela a São Francisco de Paula – 43 km

Deixei a cidade de Canela logo pela manhã, meu ponto de partida foi em frente à Catedral de Pedra. Segui o mapa por algumas ruas da cidade e depois pedalei em direção à Vinícola Jolimont. Infelizmente para visitá-la é necessário fazer agendamento. Eu não havia feito, então segui em frente.

Foi um trecho muito agradável, com verde exuberante dos dois lados da estrada de terra. Logo depois de passar uma capela luterana, veio uma subida muito íngreme e no fim dela uma estrada pavimentada tranquila, me levou direto para São Francisco de Paula.

São Chico, como a cidade é chamada carinhosamente por seus moradores, é um lugar rico de paisagens naturais.  O Lago São Bernardo é lindo. Pedalar pela orla foi muito agradável.

O sol ameno e o céu lindo fizeram com que eu me esticasse no gramado da orla, e ali permaneci um bom tempo descansando. Só depois fui em busca de hospedagem. Fiquei na pousada Estalagem da Serra, não muito distante do lago.

Eu estava na minha sétima etapa, havia cumprido 13 dos 15 trechos proposto pelo guia. Os dias quentes foram os mais difíceis, e sim, estávamos nas Serras, portanto enfrentei muitas subidas e descidas técnicas. Alguns trechos exigiram esforço máximo e outros nem tanto. A rota tem tudo que um ciclista ama: terra batida, subidas, descidas, zona rural, muito verde e montanhas.

Em São Chico fiquei dois dias, um deles foi para visitar com calma o Parque das Cachoeiras.

O trecho do centro de São Chico até o Parque das Cachoeiras não é longo, mas possui subidas bem íngremes. No caminho encontrei um funcionário do parque que me acompanhou até lá. Conversando ele me disse que algumas das trilhas não eram aconselhadas a percorrer sozinha, justamente aquelas onde estavam as mais belas cachoeiras.

Eu já estava conformada com o fato de que muitas trilhas seriam excluídas do meu passeio. Foi quando na portaria encontrei a Marcia, que também estava sozinha. Nos apresentamos e combinamos de fazer as trilhas juntas. E foi perfeito.

Ela foi uma companhia adorável. Ficamos mais de seis horas percorrendo trilhas de todos os graus de dificuldade. Exploramos praticamente o parque todo. Na volta ela se prontificou a levar a minha bike no bagageiro do seu carro e eu agradeci. Voltar pedalando e enfrentar mais subidas teria sido um esforço enorme.

Deixamos o parque e fomos visitar uma outra “jóia” da pequena cidade, a Livraria Miragem. O lugar é um encanto. A iniciativa de construir a livraria foi da professora de História aposentada Luciana Olga Soares. 

Desiludida com as mudanças ambientais e sociais ocorridas nos últimos anos em sua região, e com a falta de interesse do Estado pelos cuidados com a terra,  ela resolveu construir um lugar para os amantes das letras, no intuito de preservar a história e a cultura local.

Tivemos o prazer de conhecê-la e ouvi-la falar de forma apaixonada sobre a cultura de seus antepassados e sobre as belezas dos enormes pastos que dominavam a região. 

Ali mesmo, anexo à livraria há um restaurante muito charmoso. Foi ali que eu e a Marcia almoçamos e brindamos o dia com um vinho da serra gaúcha. Perfeito!

As etapas seguintes: São Francisco de Paula a Canela, Canela a Nova Petrópolis

De São Francisco de Assis a Canela, segundo o guia eu teria de atravessar a ponte da Barragem do Blang, no quilômetro 16, um rio no quilômetro 17, além da ponte da Barragem do Salto.

Com a onda de calor que havia atingido o estado naquela semana e com as chuvas fortes dos dias anteriores, avaliei muito e decidi não seguir com o pedal. Consequentemente não faria também o último trecho de Canela a Nova Petrópolis.

Eu já havia percorrido 242 km e passado por 13 trechos da rota proposta pelo guia. Estava orgulhosa de mim mesma. Foi um percurso que exigiu muito esforço físico, oferecendo muitas subidas e descidas técnicas. Concretizei meu desejo de pedalar sozinha em algum lugar do nosso imenso Brasil. Além disso, não fui discriminada e nem hostilizada. Pelo contrário, quando precisei de ajuda encontrei pessoas amáveis e dispostas a me ajudar.

Viajar de bicicleta é possível em qualquer lugar do mundo. Mas é muito importante conhecer o roteiro, analisar e estabelecer estratégias, e principalmente respeitar limites seus e dos seus arredores. E assim viajar com segurança.

Esse foi mais um circuito. Agora é só esperar pelo próximo.