Rotas de bicicleta pelo mundo
Viajar de bicicleta é uma das formas mais completas de conhecer o mundo. O pedal me conecta às paisagens, culturas e pessoas. Não se trata apenas de sair de um ponto e chegar a outro. Cada trecho é uma experiência em si. O clima muda, surgem detalhes e descobertas que só a bicicleta revela.
Nos últimos anos, o cicloturismo ganhou força e, com ele, surgiram iniciativas grandiosas que transformaram essa forma de viajar em algo acessível para todos, abrindo caminhos e inspirando novas rotas de bicicleta pelo mundo.
Eurovelo
Na Europa, a EuroVelo se consolidou como a maior rede cicloviária do mundo, com mais de 90 mil quilômetros de rotas que atravessam o continente, conectando países, cidades históricas, rios e montanhas em um mosaico cultural e geográfico. Tive a oportunidade de pedalar por algumas dessas rotas: Eurovelo 15 , a EuroVelo 12 (rota do Mar do Norte), a EuroVelo 7 (rota do Sol, atravessando a Europa de norte a sul), a EuroVelo 6 (a clássica rota dos rios, do Atlântico ao Mar Negro), a EuroVelo 10 (rota do Mar Báltico) e a EuroVelo 13 (a Rota da Cortina de Ferro, que percorre fronteiras históricas). Cada uma delas carrega sua própria identidade, mas todas têm em comum a beleza da diversidade cultural e paisagística.
Rotas nacionais da Europa
O que muitos não sabem é que, além dessas rotas internacionais, cada país também desenvolveu suas próprias rotas nacionais, muitas vezes interligadas à EuroVelo. E é justamente aí que mora o encanto: essas redes revelam a essência local, conectando pequenas vilas, paisagens rurais e caminhos históricos que dificilmente seriam descobertos de outra forma.
Na Holanda, por exemplo, pedalar pelas LF-Routes, como a Maasroute ao longo do rio Mosa ou a Zuiderzeeroute em torno do antigo mar interior, é mergulhar em cenários idílicos. E com o sistema de “knooppunten”, fica fácil traçar percursos do seu jeito, apenas conectando pontos numerados. Já na Alemanha, as D-Routen atravessam o país em todas as direções. A D-Route 3 liga o Reno a Dresden e a D-Route 10 dá a volta completa no território alemão. Entre as favoritas dos cicloviajantes está o Elberadweg, que segue o rio Elba e é considerada uma das rotas mais pedaladas do continente.
A Dinamarca também surpreende: são 11 rotas oficiais, como a Rota 4, que percorre a costa oeste da Jutlândia em meio a dunas e vento forte, e a Rota 5, que conecta Copenhague à ilha de Bornholm.
O Reino Unido abriga o National Cycle Network, uma imensa rede coordenada pela Sustrans, com itinerários lendários, como a NCN 1, de Dover às Highlands da Escócia, e a NCN 7, que cruza as paisagens escocesas de Glasgow até Inverness. No norte da Europa, a Suécia guarda joias como a Kattegattleden, certificada como rota nacional, que leva o ciclista de Gotemburgo a Helsingborg ao lado do mar, além da Sverigeleden, que cruza o país de norte a sul. Na vizinha Noruega, a costa é palco da Rota 1, que segue até a fronteira com a Rússia, enquanto a Rota 3 revive o caminho de peregrinos rumo a Trondheim.
Na Finlândia, são nove grandes rotas, entre elas a de número 8, que acompanha a costa oeste com seus portos e cidades históricas. Já no Báltico, a Estônia, Letônia e Lituânia oferecem percursos cada vez mais estruturados. A Estônia tem as rotas EE1, EE2 e EE3, que conectam Tallinn, Tartu e o litoral; na Letônia, a rota 10 acompanha o mar Báltico; e na Lituânia, a rota nacional 10 cruza o Istmo da Curlândia, uma das paisagens mais emblemáticas da região.
Na França, o cicloturismo já é parte da cultura. A rede Véloroutes et Voies Vertes soma centenas de quilômetros, com percursos inesquecíveis como a Loire à Vélo, que desliza pelo vale dos castelos, a Vélodyssée, que acompanha o Atlântico, e a Véloscénie, que liga Paris ao icônico Mont Saint-Michel. E na Itália, em constante expansão, a Ciclovia del Sole e a Ciclovia del Po já se consolidaram, ao lado de rotas regionais charmosas nos vinhedos da Toscana, nos vales do Trentino e nas planícies do Vêneto.
Percorrer essas rotas nacionais é descobrir um outro lado da Europa, mais autêntico e próximo do cotidiano das pessoas. Cada pedalada revela histórias, culturas e modos de vida que só a bicicleta consegue aproximar. É o encontro perfeito entre aventura, natureza e descoberta — um convite aberto a todos que sonham em viajar sobre duas rodas.
As rotas nas Americas
Fora da Europa, outras rotas também se tornaram símbolos do cicloturismo. Na América do Norte, os Estados Unidos vêm expandindo o US Bicycle Route System, que já soma mais de 30 mil quilômetros. Entre seus percursos lendários estão a USBR 1, que acompanha a costa leste, e a USBR 50, que cruza o país de leste a oeste. Na costa do Pacífico, a Pacific Coast Route leva ciclistas do Canadá até o México, sempre à beira do oceano.
Para os mais aventureiros, a Great Divide Mountain Bike Route, com cerca de 4.400 quilômetros pelas Montanhas Rochosas, é considerada a maior rota off-road do mundo. O Canadá, por sua vez, abriga a Trans Canada Trail (The Great Trail), uma imensa rede que corta o país de costa a costa, com trechos cicláveis que se transformam em jornadas épicas. Na América do Sul, a joia da coroa é a Carretera Austral, no Chile, uma estrada de 1.240 quilômetros entre fiordes, florestas e montanhas da Patagônia.
Oceania
Na Oceania, o destaque absoluto é a Nova Zelândia, que desenvolveu a rede Nga Haerenga – The New Zealand Cycle Trail, reunindo mais de 20 rotas oficiais conhecidas como Great Rides. Entre elas brilham a Otago Central Rail Trail, que percorre antigas ferrovias, a Alps 2 Ocean Trail, que conecta os Alpes do Sul ao Pacífico,
e a West Coast Wilderness Trail, entre florestas e rios selvagens. A Austrália, embora menos integrada, também guarda tesouros: a Munda Biddi Trail, na Austrália Ocidental, com mais de 1.000 km, é considerada a maior trilha de mountain bike do mundo, enquanto a Great Victorian Rail Trail, em Victoria, oferece uma viagem mais tranquila entre cidades pitorescas.
Asia
No Japão, o cicloturismo cresce a cada ano, impulsionado por uma infraestrutura exemplar. A mais célebre é a Shimanami Kaido, uma rota de 70 km que liga ilhas do Mar Interior de Seto através de pontes suspensas, oferecendo vistas inesquecíveis. Outra rota popular é a Biwaichi, que contorna o Lago Biwa, o maior do país. Além dessas, há percursos em Hokkaido, com suas planícies e montanhas, e em Kyushu, que combina vulcões e fontes termais.
A Coreia do Sul é um verdadeiro exemplo mundial. O país construiu uma rede nacional de ciclovias conectadas, pavimentadas e sinalizadas. A mais famosa é a Korea Cross-Country Cycling Road, que liga Incheon, perto de Seul, até Busan, no sul, em cerca de 633 km. Essa rota faz parte da Four Rivers Trail, que acompanha os rios Han, Nakdong, Geum e Yeongsan. Pedalar por ela é mais do que uma jornada: é uma experiência completa, com passaportes de carimbos, centros de apoio ao ciclista e a sensação de segurança que permite apreciar a viagem com tranquilidade. Para quem busca um cenário ainda mais especial, a Jeju Fantasy Bike Path contorna a ilha vulcânica de Jeju em 234 km, passando por praias, falésias e campos de lava.
Brasil
E então chegamos ao Brasil, onde o cicloturismo também floresce com iniciativas que revelam a diversidade cultural e natural do país. Rotas como a Estrada Real (com seus caminhos históricos do ouro e dos diamantes), o Vale Europeu em Santa Catarina (primeiro circuito planejado de cicloturismo do Brasil), o Caminho da Fé (inspirado em Compostela), o Circuito Lagamar (entre São Paulo e Paraná, cortando áreas de Mata Atlântica), o Caminho do Sol, o Caminho das Missões, o Circuito das Araucárias, a Rota Romântica no Rio Grande do Sul, o Caminho dos Anjos em Minas, a Rota da Luz e a Ciclorrota de Caravaggio no sul mostram que a bicicleta já é, também aqui, uma forma concreta de viajar, aprender e se transformar.
Essas redes representam mais do que simples caminhos: são símbolos de uma mobilidade sustentável e de uma forma de turismo que valoriza a natureza, a história e a convivência entre culturas. Para quem viaja de bicicleta, elas abrem portas para um mundo de possibilidades, permitindo que cada jornada seja única, segura e profundamente transformadora.
Falo disso não apenas como observadora, mas como alguém que encontrou na bicicleta uma nova forma de viver. Foi depois da aposentadoria que decidi pedalar mais longe e, desde então, venho acumulando quilômetros, memórias e encontros. A cada viagem, descubro que o mundo é muito maior do que eu imaginava e, ao mesmo tempo, mais próximo e acessível do que parecia.
A bicicleta me ensinou a valorizar o caminho, a celebrar a simplicidade e a confiar na força das minhas próprias pernas. Pedalar pela Europa, América, pela Oceania, pelo Japão ou pela Coreia do Sul é perceber que o mundo é imenso, mas que, sobre duas rodas, cada quilômetro nos aproxima ainda mais dele.
Muitas dessas rotas tive o privilégio de percorrer — e muitas ainda faltam, como, por exemplo, Estados Unidos, Canadá e Finlândia. Quem sabe um dia!





















































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